Drogas antecipam transtornos mentais

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Consumo de entorpecentes pode antecipar a manifestação de transtornos mentais. Foto: Flickr

 

De acordo com pesquisas e especialistas consultados pela reportagem da Rede Teia, jovens que tem predisposição genética para a esquizofrenia, podem desencadear a doença mais cedo se fizerem uso de drogas psicoativas. O consumo de drogas como o LSD, maconha e cocaína podem funcionar como um gatilho para o início da esquizofrenia em pessoas que já tem predisposição a tê-la. Uma pesquisa realizada pela Clinica de Psiquiatria e Psicoterapia Infantil e de Adolescentes da Universidade Friedrisch Schiller da Alemanha, constatou que as drogas podem dar uma piora imediata ou causar o aparecimento de sintomas psicóticos logo após o paciente esquizofrênico ter  usado alguma substância.

O resultado encontrado na pesquisa alemã também é visto no dia a dia da psicóloga Lislaine Tocach, que trabalha com saúde mental desde 2006. Segundo a profissional o fato de as drogas alterarem o comportamento de nosso organismo e funcionamento cerebral são algumas das razões para o desencadeamento da doença. Uma dessas alterações que as drogas causam no organismo, é a liberação de dopamina, que também ocorre em quadros esquizofrênicos.

Luis Fernando*, de 17 anos, fez uso de LSD, maconha e cocaína, e depois disso, começou a ter surtos psicóticos. O jovem chegou a ter vontade de se matar, e suas alucinações influenciam no modo de se expressar, já que o irreal acabou se misturando com a realidade. Atualmente, Luis está internado e em tratamento, e participa de grupos de apoio e consultas médicas.

Os remédios antipisicóticos tem um papel importante no tratamento da doença, já que eles previnem surtos psicóticos –perda da noção de realidade-, os quais muitas vezes, dependendo do quadro, podem chegar a durar 10 dias. Além dos remédios, a psicoterapia, terapia ocupacional e grupos de pacientes também fazem parte do tratamento, que é igual para pacientes que fizeram ou não uso de drogas.

Por mais que o paciente esquizofrênico não seja perigoso, Tocach diz que durante um surto psicótico ele pode acabar machucando outras pessoas porque a “voz” mandou. Ela fala que já aconteceram casos de ordem judicial para o internamento de doentes que colocaram a vida deles próprios e de outras pessoas em risco por conta de uma alucinação.

Os números

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No Brasil, 81.265 pessoas foram internadas no SUS em 2014 por causa da esquizofrenia. Foto: banco de imagens

Os dados do sistema de informações do Sistema Único de Saúde (SUS), o Datasus, mostram que só em 2014 mais de 81 mil pessoas foram internadas por causa de transtornos esquizofrênicos. Não há informações sobre quantos desses casos têm relação com o uso de entorpecentes. No Paraná, o total de atendimentos de surtos esquizofrênicos foi de 5.859, 752 só em Curitiba.

Segundo o Datasus, as drogas podem causar uma intoxicação aguda, que altera a percepção de mundo mas passa com o tempo, ou um transtorno psicótico, caracterizado pela presença de alucinações. A presença da família e de psicólogos são fundamentais para que o individuo consiga viver com o transtorno. Uma vida normal o paciente não terá, mas ele será capaz de estudar e até mesmo de ter uma profissão.

As pessoas com esquizofrenia são geralmente muito inteligentes. Eles tem dons e aptidões que as pessoas ditas normais não tem. Um dos exemplos mais famosos disso, é o líder da banda americana de rock Beach Boys, Brian Wilson. Em sua autobiografia “Wouldn’t it be nice: my own story”, Wilson fala como o abuso de drogas, como o LSD durante os anos 60, desencadearam no agravamento da esquizofrenia.

Hoje em dia ainda falta informar as pessoas sobre a esquizofrenia, principalmente sobre sua relação com as drogas. É preciso mostrar a doença como ela realmente é, para tentar afastar a imagem de “louco” que uma pessoa que sofre da esquizofrenia tem popularmente.

 

A doença

A realidade é como as coisas são de fato, mas quando delírios começam a aparecer, é sinal de que alguma coisa não vai bem. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 26 milhões de pessoas sofrem da esquizofrenia, que se manifesta entre a adolescência e o início da fase adulta, e tem como primeiros sintomas o isolamento, mudança de comportamento e percepção, e estranhamento. É um transtorno mental grave, em que o paciente deixa de ter contato com a realidade e passa a ter alucinações visuais e auditivas.

O diagnóstico clinico é feito por um psiquiatra e psicólogo ao longo de um período de acompanhamento, e o tratamento precisa ser mantido por toda a vida, já que é uma doença que não tem cura. Porém, 50% das pessoas que tem o transtorno não tem acesso ao tratamento, sendo que 90% dos portadores que não são tratados vivem em países em desenvolvimento.

Reportagem: Francisco Mateus, Marcela Gama
Vídeo: Daniele Vieira

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