Os cuidados com a saúde mental dos idosos em tempos de pandemia

A psicóloga Samara Dal-Lago afirma que os casos depressivos nessa faixa etária vêm crescendo cada vez mais, por ser um período de muitas mudanças

 

 

 

 

“Eu queria viver mais, é tão bom viver. Eu tô com 90 anos e já vi passar a fase da varicela, febre-amarela e meningite, mas nunca vi passar uma fase como essa, uma coisa feia desse jeito” – diz Stelita Silva, moradora de Barreiras, interior da Bahia, sobre o novo coronavírus. É evidente que a rotina de milhares de pessoas foram reestruturadas devido ao isolamento social, proveniente da pandemia. Deste modo, a manutenção da saúde mental se tornou um desafio, principalmente para os idosos, pertencentes ao grupo de risco que, por consequência, precisam de atenção redobrada nesse momento.

Stelita Silva, de 90 anos, fazendo caça-palavra (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo o último boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde, dos 7.514 óbitos decorrentes da Covid-19 no Brasil durante a semana de 1 a 18 de maio, 69% tinham mais de 60 anos de idade e 65% apresentava pelo menos um dos fatores de risco, como cardiopatia, diabetes e doenças neurológicas. Segundo o painel de atualizações cobre o coronavírus do Ministério da Saúde, 18.859 pessoas morreram por conta da Covid-19, até a quarta-feira (20).

A aposentada Aglacir Ceolin, moradora de Colombo, região metropolitana de Curitiba, afirma que o que lhe preocupa é saber que além de estar no grupo de risco, é ser hipertensa e diabética. “Já pensou uma pessoa que nem eu, aos 74 anos, ter uma morte estúpida dessas, sem poder ter um funeral decente? É triste imaginar isso”.

Aglacir Ceolin, de 74 anos, rezando (Foto: Arquivo Pessoal)

Em um cenário no qual as porcentagens pesam drasticamente para uma determinada faixa etária, quem se encontra nela vivencia um medo mais próximo e com grandes chances de desenvolver transtornos mentais, como ansiedade e depressão. Ao longo das últimas décadas, é possível notar um crescimento na expectativa de vida dos idosos e, de acordo com a psicóloga, Samara Dal-Lago, isto gerou um aumento na deterioração da saúde dos mesmos. A psicóloga explica que os casos depressivos nessa faixa etária vêm crescendo cada vez mais, por ser um período de muitas mudanças, entre doenças crônicas, perda de amigos e familiares, e a sensação de finitude da vida.

Para a psicóloga Mariana Bassan, a interferência da ansiedade na rotina dos idosos pode ser mais prejudicial do que se imagina. Um dos sintomas da doença que Mariana cita, é o pensamento desorganizado, o qual faz com que não seja possível executar tarefas simples, pois a pessoa quando ansiosa acaba se desconcentrando mais facilmente. “Para os idosos isso se torna mais perigoso, pois podem esquecer panela no fogo, descer uma escada, e se desconcentrar gerando uma queda, entre outras situações”.

Em tempos no qual manter a distância é sinônimo de cuidado com os mais velhos, a saudade das reuniões em família é constante, como é o caso de Stelita Silva. A aposentada relata que notou maior diferença em seus hábitos, na Sexta-feira Santa (10). Ela conta que era de costume, nesta data, se reunir com mais de 50 pessoas, mas que neste ano estavam apenas em cinco. “Foi muito triste, do jeito que sou católica, passar a Páscoa longe de toda a minha família e sem poder ir à igreja.”

Existe uma preocupação ainda maior com os idosos que moram sozinhos. De acordo com as psicólogas Samara e Mariana, incentivar exercícios físicos e mentais, como jogos de tabuleiro e palavras-cruzadas, são essenciais para deixar mais leve esse isolamento. Contudo, a psicóloga Milena Lima reitera a importância do respeito pela individualidade de cada pessoa: “as famílias precisam desenvolver atividades que estejam mais próximas daquelas que eles já costumavam fazer. Os idosos são bem resistentes às mudanças”.

José Nieto Castro, aos 81 anos, assistindo televisão (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Espanha, a situação é mais crítica do que no Brasil. Tendo em vista a análise epidemiológica, do Ministério de Sanidad, do dia 16 de abril, o país apresentava 122.469 óbitos pelo Sars-CoV-19, sendo 61.992 pessoas com mais de 60 anos. A brasileira Carmelita Alves Oliveira, de 59 anos, mora em Miranda de Ebro, na província de Burgos, com seu marido José Nieto Castro, de 81. Ela comenta que apesar das notícias estarem cada dia mais preocupantes, as pessoas parecem estar mais acolhedoras: “É muito sofrimento, mas as pessoas estão se doando. Se aproximam, batem na porta, perguntam se falta algo, se querem que comprem alguma coisa”.

Embora seja um momento difícil, as práticas solidárias se tornaram mais comuns atualmente, devido à mobilização da sociedade pelos mais necessitados. Diante disso, Samara Dal-Lago destaca que há diversos estudos que comprovam os benefícios que o trabalho voluntário traz, tanto para quem faz, quanto para quem recebe. “Essa ação estimula a produção de serotonina, oxitocina e dopamina, conhecidos como hormônios da felicidade, melhorando o sistema imunológico e cardiovascular, além de aumentar sentimentos de felicidade, afeto, independência e autoestima”. As boas ações, que demonstram empatia pelos idosos, os fazem acreditar que essa fase vai passar. A aposentada Aglacir Ceolin sugere aos demais: “se apegue em sua religião, tenha fé que tudo vai dar certo e claro, fique em casa”.