Em época de Pandemia, o ensino online para crianças precisa se reinventar

Com a educação online, a organização de pais e professores passa a ser redobrada a fim de que crianças consigam se adaptar ao ensino a distância e se tornam um desafio

 

 

 

 

Com a pandemia do coronavírus, as instituições de ensino privado, municipal ou estadual suspenderam as aulas pelo decreto de quarentena. Com alunos em casa, novas maneiras de estudo passaram a ser praticadas. As formas de ensino aplicadas ao ensino infantil e fundamental têm variado de acordo com cada escola. Aulas ao vivo, vídeos gravados e exercícios são algumas das formas que as instituições tem buscado oferecer para a realização domiciliar dos conteúdos educativos. O processo de adaptação das crianças, contudo, é diferente dos demais por ainda não terem autonomia e passa a ser um desafio tanto para pais quanto para professores.

A educação online supre em partes a escola, o ambiente escolar proporciona ao aluno além do ensino de conteúdo, vivências em grupo. Para a neuropedagoga, especialista em comportamento e desenvolvimento infantil, Larissa Fonseca, de 39 anos, essa adaptação para o ensino online permitem ao aluno o mantimento de alguns aspectos educacionais como a rotina, vínculo, convivência com professores e colegas pelo contato que continuam tento e a ideia de conectar conteúdo, mas não substituem o ensino físico e domiciliar.

No Paraná, segundo o decreto escolas não precisam cumprir o mínimo de 200 dias letivos, mas a carga horária de cada fase de ensino continua presente. Para os alunos da rede estadual de educação do Paraná, a Secretaria de Educação e Esporte, SEED-PR, está usando o aplicativo Aula Paraná em que pelo método EAD podem acompanhar aulas e interagir com professores e colegas por meio de um chat.

Em 2019, o Brasil matriculou 48,4 milhões de alunos na educação básica de escolas municipais, estaduais ou privadas. De 2015 para 2019, as matrículas na educação infantil cresceram 12,6% atingindo 8,9 milhões de crianças. Já no ensino fundamental, foram registrados 26,9 milhões de matrículas. Com a quarentena, todas essas crianças passam a ficar em casa, sendo o EaD  a solução adotada por muitos estados, inclusive o Paraná.

O ensino online tem o objetivo de manter as crianças engajadas no estudo, manter a rotina e o convívio. Para Larissa, o aprendizado para crianças, no entanto, é diferente por não estarem inseridas em um contexto em que todas tem a mesma idade, tempo de concentração e realidade, “os recursos para se prender a atenção, a didática aplicada para um criança mais nova é diferente do que para uma criança mais velha, um adolescente”, explica. A neuropedagoga, ainda cometa que além dessa realidade heterogenia, também há crianças que não tem acesso a recursos tecnológicos e escolas que não tem esse preparo e condição, tornando mais complexo o ensino online para as crianças.

A organização e preservação de uma rotina são alguns dos principais aspectos a serem feitos pelas crianças mais novas com a educação online. A professora da educação infantil da rede do município, Cristiane Gomes, 43, fala que por trabalhar com crianças menores a realização de exercícios passa a ser mais difícil, então a saída recomendada é a valorização da rotina que esses alunos tinham na escola, além de atividades alternativas como jogos, pinturas e leitura de histórias. Para Cristiane, é importante que os pais mantenham esses horários e esse ritmo de atividades a fim de quando as coisas normalizarem essas crianças não enfrentarem muita dificuldade de readaptação.

Ao mesmo tempo, para as crianças mais velhas além da organização e estabelecimento de rotina, é preciso que realizem exercícios e assistam aulas online. A professora de uma escola privada, Melissa Mariano, 45, diz que apesar de agora os processos estarem mais fáceis, não substituem a escola, é preciso estarem se reinventando a toda aula. A professora explica que buscando fazer com que o aluno não perca a rotina escolar e que se concentrem melhor, as aulas são ao vivo e possuem o mesmo ritmo de como era feito antigamente: com o professor presente fazendo exercícios e explicando a matéria, enviando tarefas para fazer após, de uniforme, com materiais lúdicos e em grupos para que as crianças também continuem o convívio com os colegas de classes.

A experiência de convívio e aprendizado tem sido diferente em cada núcleo familiar, para algumas famílias a oportunidade de vivenciar essa realidade tem sido enfrentada normalmente, contudo, em algumas situações as mudanças tem sido difíceis. Daiane Bisson, 32, mãe do Miguel de 8 anos, diz que adaptação tanto dos pais quanto do filho está sendo trabalhosa principalmente por precisar conciliar muitos afazeres. A mãe diz que para tentar continuar mantendo os estudos nessa fase, busca encaixar o que ele estava aprendendo na escola, com as atividades propostas por professores e as que ela mesma elabora.

DESAFIOS E MUDANÇAS

Como as mudanças ocorreram em um curto período de tempo, pais, alunos, professores e funcionários ainda estão se adaptando a essa nova realidade online. “A escola e a comunidade escolar que envolve alunos, funcionários, a família têm passado por desafios muito grandes de entender como fazer esse momento ser significativo, construtivo. Como manter o máximo possível da rotina e dos aprendizados e não deixar esse tempo ser ócio, não construtivo”, comenta Larissa.

Esse período de adaptação acaba sendo um desafio tanto para as crianças quanto para os pais. Para Larissa, os pais precisam ter em mente que a educação online é uma solução momentânea para algo que aconteceu de repente e devem realizar somente o que for possível. A neuropedagoga ainda afirma que a escola tem consciência de que tudo está interligado e que é viável que os responsáveis realizem com seus filhos as atividades que serão significativas, “minha sugestão é que eles façam o que for possível, da maneira que for possível e que for significativo, e o que não for possível de fazer ou seja difícil, compartilhar e conversar com a escola. Fazer por fazer não vai agregar, esse diálogo, essa empatia, essa consciência de fazer o que for possível é o ideal”, comenta Larissa.

A neuropedagoga também diz que os desafios são enormes, educadores sentem a angustia da mudança na maneira de se ensinar, pois com as aulas online, o aprendizado é geral e em sala a atenção poderia ser dividida. Outros aspectos que ela cita ter percebido nos educadores também o fato deles ministrarem a forma de passar conteúdo sabendo que os pais também vão precisar entender e passar para seus filhos depois e que além disso, manter os alunos engajados é um desafio. “Eu acredito que são muitos os desafios que esse período está trazendo, o desafio de se reinventar a sala de aula, de continuar a educação escolar fora do ambiente escolar, de você manter o seu propósito mas passar ele para um terceiro realizar – que são os pais – e ter esse acolhimento, essa empatia geral” ressalta.