Instituições de educação aderem à internet durante o isolamento social

Instituições de ensino públicas e privadas utilizam plataformas online para continuar as aulas e não suspender as atividades

 

 

 

 

Com 111 mortes causadas pela Covid-19 e 1.849 casos confirmados pela Secretaria da Saúde do Estado do Paraná, até a segunda-feira (12), o Paraná mantém a rotina de isolamento social em prevenção à doença. A medida fechou tanto estabelecimentos comerciais como educacionais, e uma das soluções para contornar a situação é a aplicação de aulas, à distância.

O estado possui cerca de 1 milhão de alunos matriculados na rede de ensino estadual, que abrange ensino fundamental e médio. Para continuar com o ano letivo, o governo implementou o sistema Aula Paraná, composto por canais no YouTube, na televisão aberta e através do aplicativo. Além desse tipo de escolarização, instituições públicas e privadas de educação temática, como arte e cursos pré-vestibulares, também adotaram a plataforma online como solução para o período de isolamento.

Aula Paraná e o ensino público

“Na questão da aula a distância e, por se tratar de um estado inteiro, a preparação é mais minuciosa, exige muita cautela e acaba gerando demandas muito grandes para conseguir atender”, disse o professor de Química da plataforma Aula Paraná Robert Gessner Junior. Hoje, as aulas são distribuídas através do canal RIC, do canal no YouTube e pelo aplicativo Aula Paraná.

Para ele, uma das principais diferenças entre as estruturas de ensino é a percepção do ritmo de aprendizagem dos alunos. Enquanto nas aulas presenciais o desempenho do aluno é observado, no online “eu [Gessner] ainda não tive como avaliar a questão da participação, por se tratar de uma aula gravada principalmente, eu não consigo fazer um balanço de como está acontecendo a interação deles em casa, se resolvem os exercícios que eu solicito nas aulas”. Apesar das diferenças de demanda e produção do conteúdo escolar, o professor mantém sentimentos positivos sobre o Aula Paraná.

Professor Robert Gessner Jr. ministranto aula de Química para 3º ano de Ensino Médio pelo Aula Paraná (Foto: Reprodução/Aula Paraná)

 

Para a pedagoga Ana Lúcia De Souza, que trabalha há 30 anos na rede estadual de ensino, o sistema utilizado pelo Aula Paraná não é viável. Segundo ela, a carga horária das aulas é excessiva: “Imagine uma criança de dez ou onze anos, em frente a uma televisão por quatro horas seguidas,  sem ter aquela interação real. Imagine o significado que isso tem em termos de aproveitamento. Eu arriscaria dizer que quase nenhum”, comentou a pedagoga.

Ana Lucia alerta alguns comportamentos que os alunos venham a desenvolver a partir da proposta de ensino aplicada, como “ansiedade; um certo descontentamento com este formato, considerando que são mais de quatro horas diárias. É inadequado tanto para o [ensino] fundamental quanto para o médio,principalmente numa situação como essa de pandemia, onde a organização da casa das pessoas passou por modificação”.

A APP Sindicato repudia o formato de ensino aplicado no estado. Em artigo, o sindicato critica a forma como foi instaurado o sistema de aulas remotas, e retoma o posicionamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR) de preocupação com os estudantes imersos no Aula Paraná, publicado pelo Setor de Educação da universidade.

Interface do aplicativo Aula Paraná, e avaliação disponibilizados no Google Play (Foto: Reprodução)

Cursos pré-vestibulares e o online

Bióloga e professora de curso pré-vestibular, Livia Blanche diz que a maior mudança que o sistema EAD trouxe para sua rotina foi a quantidade de aulas preparadas por semana, pelo fato de ter que gravar muitas aulas em apenas um dia a sensação de estar trabalhando mais do que quando a aulas eram presenciais.

Blanche fala sobre os desafios que gravar aulas impuseram à ela nas primeiras vezes  “você não pode gaguejar, porque se não tem que gravar novamente, você tem toda uma pressão que tudo seja contínuo”, a entrevistada também relatou que depois de algum tempo gravando se acostumou com a nova forma de ensinar, mas que a ausência dos alunos ainda é um desafio.

Quando perguntada sobre o desempenho dos alunos, ela relata que uma grande parcela dos alunos do curso pré-vestibular não está sabendo se organizar diante da sobrecarga de tarefas. Blanche também aponta o fator psicológico dos alunos “muitos alunos principalmente os de baixa renda tem problemas em casa como alcoolismo, eles não conseguem se concentrar e estão ficando mais depressivos, isso é um problema muito grande”, a professora também alerta os pais sobre a importância do apoio deles nesse momento de tantas mudanças.

Música: ensino e prática à distância

Um dos maiores problemas no ensino online é a aplicação de aulas práticas. “Acredito que a situação ímpar que estamos passando, nos instiga a adquirir novas ferramentas e soluções e a aprimorar as que já tínhamos”, conta a diretora e musicista da Paideia – Escola de Música Cristiane Alexandre. A escola desenvolveu um sistema EAD: a Paideia Aulas Online (PAO).

“Elaboramos a Matriz de Planejamento da Aulas do sistema PAO – Paideia Aulas Online elegendo os aplicativos, equipamentos, procedimentos e informações sobre a preparação do ambiente de aula, sites, jogos e atividades musicais”, diz Cristiane. Além disso, a escola decide com o aluno que tipos de materiais tem disponível para estudo e, a partir disso, desenvolve um plano de aulas exclusivo para o aluno.

Professora Julia Saggin (à direita) em aula online. (Foto: Arquivo pessoal/Julia Saggin)

“Eu acho que a gente tem que ser capaz de se adaptar e a tecnologia está super ajudando a gente”, explica a professora de canto e piano da Paideia Julia Saggin. Em suas aulas, mesmo alunos que não possuem instrumento em casa  recebem conteúdos que estejam no contexto de aprendizado musical. Para a professora, as maiores dificuldades de se ensinar na plataforma online são falhas técnicas e a impossibilidade de observar o posicionamento do aluno durante a prática, mas não impedem o avanço do aprendizado.