Juramento posto em prova numa guerra invisível

Mesmo com risco iminente de se infectar pela Covid-19, enfermeira diz que o orgulho prevalece sobre o medo: “ainda tenho mais vontade de estar lá do que não estar”

A batalha contra o novo coronavírus é muito mais visível para quem está na área da saúde. Os dados indicam que esses profissionais, além de estarem sobrecarregados, estão sob maior risco. Das 16.523 mortes ocasionadas pela Covid-19 na Itália, 94 eram médicos e 26 enfermeiros, segundo o Ministero Della Salute. O Brasil registrou, até a segunda-feira (06), três mortes de profissionais da saúde infectados. O medo e a insegurança, portanto, só aumentam na vida de quem está diariamente exposto a esse vírus. Levando em consideração o juramento que fizeram ao se formarem, médicos e enfermeiros se encontram na linha de frente dessa luta invisível contra a doença, se isolando até mesmo de suas próprias famílias para cuidarem de tantas outras.

De acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde, 12.240 casos do novo coronavírus foram confirmados no Brasil, e as expectativas para os próximos dias não são muito positivas. O clínico geral Atamai Moraes explica que a velocidade em que os números de casos dobram é de 54 a 72 horas. Isso significa que nos próximos sete dias, os casos confirmados podem chegar a 10.000, dependendo da rapidez em que os resultados dos testes disponibilizados, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), saírem. “Os casos graves já estão aumentando e, provavelmente, passaremos de 100.000 casos confirmados até o fim deste mês. Sem achatar a curva, o SUS entrará em colapso antes da metade do ano”, complementa Moraes.

Da esquerda para a direita: Wellaine Cristina de Lima, Atamai Moraes e Daniele da Silva de Morais (Foto: Arquivos pessoais)

Só depois de tirar toda a roupa, colocá-las em um saco plástico e tomar um banho é que a técnica de enfermagem Wellaine Cristina de Lima, de 32 anos, considera realmente ter chegado em casa. Ela, que trabalha no Pronto Atendimento do Hospital da Polícia Militar, em Curitiba, teve que se adaptar a este hábito.

Mesmo sendo exceção para as medidas de distanciamento social, médicos e enfermeiros foram um dos primeiros a terem suas rotinas transformadas, com a chegada do novo vírus no país. Um exemplo disso é o caso do médico Atamai Moraes, que passou a trabalhar em cinco Unidades de Pronto Atendimento, na capital paranaense. 

O clínico geral, de 25 anos, começou a realizar de nove a dez plantões por semana, devido ao aumento da demanda de trabalho. Atuando na UPA do Boa Vista, Cajuru, Cidade Industrial de Curitiba, Pinhais e Fazenda Rio Grande, ele notou que desde as primeiras semanas de março teve um aumento significativo no número de atendimentos. “UPA’s que antes atendiam 400, 500 consultas por dia, atingiram mais de 1000 fichas”, explica.

 Com uma nova rotina profissional, a vida particular desses profissionais também precisou se ajustar. Aos 32 anos, a enfermeira Daniele da Silva de Morais, moradora de Sarandí, interior do Paraná, passou a se deslocar de carro até a UPA em que trabalha, no município de Jandaia do Sul, por causa das mudanças no funcionamento do transporte público. No caminho que Daniele faz, 4 vezes por semana, existe um pedágio. Se antes ela pagava R$18,20 por dia em passagem de ônibus, agora ela gasta R$21,80 somente de pedágio sem contar todos os gastos adicionais que um carro oferece.

Em um cenário mundial que apresenta 75.973 mortes de infectados por coronavírus no mundo, sendo 566 em solo brasileiro, o psicológico dos profissionais da saúde é o que mais tende a se desestabilizar. Sem um acompanhamento especializado, a situação pode se tornar mais difícil. “O orgulho está predominando sobre o medo. Ainda tenho mais vontade de estar lá do que não estar. Faz falta e acho que alguns colegas não vão conseguir segurar a barra, porque é um sentimento esquisito que afeta tanto como profissional, quanto como pessoa”, relata a técnica de enfermangem Wellaine Cristina de Lima.

Algumas cidades, como Jandaia do Sul (PR), tomaram a iniciativa de oferecer um acompanhamento psicológico aos médicos e enfermeiros, através do apoio do Departamento de Saúde Mental do município, deixando à disposição psicólogas, a fim de auxiliar em qualquer necessidade. 

Sem vacinas ou qualquer tipo de medicamento, a única forma preventiva para os agentes da saúde é o uso de EPI’s (Equipamento de Proteção Individual), além de treinamentos, que orientem os profissionais sobre a melhor forma de lidar com os pacientes. Dentre os equipamentos indispensáveis para estse combate, estão: máscaras cirúrgicas, máscaras n95, aventais impermeáveis, óculos de proteção, toucas e luvas de procedimento. Diante da transmissão deste vírus, a população tomou como conduta a compra desenfreada de máscaras e álcool em gel, e muitos chegaram até a estocar os produtos.

Com uma crise de saúde generalizada, a maioria dos profissionais de saúde, que estão colaborando contra essa pandemia, notaram a escassez de equipamentos de proteção e as doações se tornaram uma saída. “Com o apoio da Prefeitura de Jandaia do Sul, da Secretaria de Saúde, de farmácias e de uma empresa, nós estamos conseguindo adquirir os EPI’s”, aponta Daniele.

A situação atual despertou um novo olhar da sociedade perante os profissionais da saúde, principalmente aos enfermeiros, que ganharam mais visibilidade. Pelas redes sociais, a população está apoiando os profissionais, com vídeos e fotos desejando que se mantenham fortes. “A gente sempre foi muito desvalorizado, menosprezado e até, por muitas vezes, ridicularizados. As pessoas precisam entender o valor da enfermagem. Não tem nenhum serviço de saúde em que a enfermagem não esteja lá”, afirma Wellaine. Daniele da Silva também ressalta o comprometimento da profissão. “Nós fizemos o juramento de estar à frente de qualquer situação”.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), uma pessoa infectada contamina aproximadamente mais 3 e, para controlar essa situação, o isolamento total é a única medida preventiva eficaz no presente. Apesar dos últimos discursos do Presidente da República, Jair Bolsonaro, irem na contramão do isolamento social e da interrupção de atividades comerciais, com a justificativa de que o Brasil sofrerá fortes impactos econômicos, Atamai Moraes reitera a importância da prática da quarentena. “Sigam as recomendações do Conselho Nacional de Saúde e do Conselho Federal de Medicina de se manterem em casa. Não voltem às rotinas, permaneçam em isolamento e quarentena social”.

Deixe uma resposta