Covid-19: Doutor em Bioquímica responde questões sobre prevenção e contaminação do novo coronavírus

Quais itens usar para a prevenção comum? Que diferenças existem entre o vírus causador da Covid-19 e outros já estudados? O professor Emanuel Maltempi de Souza, da UFPR, responde a essas e outras questões

Graduado em Farmácia e Bioquímica e doutor em Ciências (Bioquímica) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), o professor e Vice-Diretor do Setor de Ciências Biológicas da UFPR, Emanuel Maltempi de Souza, responde questões relacionadas à pandemia da Covid-19. Atua com ênfase em Biologia Molecular e possui dois pós-doutorados na área Bioquímica: na Universidade de Sussex (Inglaterra) e na Universidade de Genebra (Suíça).

Por que a população não deve seguir os procedimentos de prevenção realizado pelos médicos, como o uso da viseira de proteção facial?

O uso de máscara pela população em geral tem sido muito discutido. Até agora a recomendação oficial da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde é que o uso de respiradores tipo N95 (indicado para reter as gotículas contaminadas) ou máscara cirúrgica não são recomendados por dois motivos: o primeiro é que há falta desse tipo de material e todo o disponível deve ser destinado aos profissionais da saúde e, o segundo, tem relação com a proteção eficiente para o usuário pois, para que seja eficiente, deve ser utilizada seguindo a técnica adequada (ajuste perfeito no rosto para não deixar espaço por onde as gotículas podem entrar e não tocar a máscara para não contaminar as mãos). 

Essa orientação tem sido discutida e também a substituição de respiradores tipo N95 ou máscara cirúrgica por máscaras caseiras confeccionadas em tecido comum. Esse tipo de máscara oferece muito pouca proteção para o usuário, mas ela impede em boa parte que o usuário emita as gotículas. Assim o uso da máscara é para proteger a comunidade de um usuário que esteja contaminado. A lógica é invertida. Como tem um grande número de pessoas infectadas e sem nenhum sintoma (não sabemos quantos por que não fizemos testes o suficiente) o uso da máscara por todos pode ser uma forma eficiente para ajudar a proteger a comunidade. É importante frisar que todas as outras medidas como distanciamento de 1,5 m de outras pessoas, lavar as mãos com frequência com água e sabão e uso do álcool 70% em gel para desinfetar as mãos e superfícies devem ser seguidas com todo zelo.

Já  viseira é importante se o usuário estiver tratando com pessoa infectada em distâncias mais curtas e frontalmente. Este tipo de contato ocorre quando o profissional de saúde atende pacientes. Nesse caso é necessário o uso de viseira. No dia a dia, a distância de 1,5 m ou mais dá proteção adequada. Além disso, a viseira protege a face mas existem muito espaço laterais por onde a gotículas podem contaminar. No dia a dia essas gotículas podem vir de todos os lados. Por isso, considero que a viseira não deve conferir proteção adicional. 

Quais os efeitos que a lavagem correta das mãos causa à estrutura do vírus? 

O vírus tem um camada externa de lipídios, ou seja, camada de gordura. Quando a camada externa é removida, o vírus é desestabilizado e inativado. Efetivamente é morto. Sabão é capaz de dissolver gordura e, portanto, é um eficiente agente para eliminar o vírus SARS-CoV-2, o novo coronavírus. Por isso, a lavagem com sabão e água é bastante enfatizada como forma de proteção, pois esse processo simples vai eliminar os vírus. Mas é importante atentar para a técnica! Se, por exemplo, depois de lavar muito bem as mãos você abrir a porta tocando na maçaneta contaminada, todo o trabalho estará desfeito!

A quarentena está sendo muito criticada. Quais consequências o isolamento traz ao número de contágio, tanto atual quanto futuro?

Em primeiro lugar, não é quarentena. Quarentena existe um isolamento absoluto das pessoas, com controle absoluto de todo material que entra e sai da área onde estão as pessoas em quarentena. Também não é isolamento social.

Hoje temos regras para aumentar o que podemos chamar de distanciamento social. O distanciamento pode ser maior ou menor, dependendo da necessidade, eé tem por objetivo diminuir a transmissão do vírus na comunidade.

Hoje não existe nenhum tratamento eficiente para a Covid-19 e muito menos uma vacina. Então qual é a nossa alternativa? A alternativa é impedir que o vírus infecte as pessoas. Como o vírus só infecta alguém estiver em contato com outra pessoa contaminado, essa é  nossa única forma de evitar que se espalhe entre nós.

É importante salientar que distanciamento social é usado há muito tempo. Foi muito usado na pandemia da gripe espanhola, entre 1918 e 1920, sendo a única forma de combater a doença, e tem registro de ser usado inclusive contra a peste negra na Europa, entre 1347 e 1351. Ou seja, não é um “remédio” novo. É uma estratégia antiga utilizada pela humanidade há mais de 1000 anos contra epidemias para as quais não temos remédios tradicionais, ou terapia farmacológica, comprovada várias vezes por mais de 1000 anos. 

Mas qual o efeito do distanciamento social? De uma forma bem simplificada, imagine que sem distanciamento 1 pessoa infectada transmite o vírus para 2,6 pessoas em 5 dias. Cada um dos novos infectados continua transmitindo para mais 2,6 pessoas. Em 30 dias teremos 406 pessoas infectadas.! Se usarmos distanciamento social, que reduz em 50% a transmissão cada infectado transmitirá para 1,3 pessoas, depois de 30 dias teremos apenas 15 infectados.

A conclusão é que distanciamento funciona e deve ser seguido. Se não ocorrer em alguns meses 80% da população paranaense, quase 9 milhões de pessoas, pode ser infectada pelo vírus, segundo alguns modelos matemáticos que têm sido usados pelas autoridades do mundo inteiro.

Um detalhe a ser destacado é que o isolamento domiciliar é usado para tratamento de doente com sintomas leves de Covid-19. O paciente fica em casa, proibido de sair, isolado, sem contato com outras pessoas para não transmitir a doença.

Distanciamento social é o afastamento entre as pessoas para diminuir contato e a transmissão. Pode ser mais ou menos estrito.

Há uma grande comparação entre o H1N1 e o Covid-19 pela a população. Quais são as diferenças entre os dois? Há uma diferença em mortalidade?

A comparação é por conta do tipo de doença provocada por estes dois vírus, que é uma pneumonia viral grave. A taxa de letalidade do H1N1 é de cerca de 0,1%, com uma taxa de transmissibilidade de 1,5. O vírus da Covid-19, o SARS-CoV-2, ainda é muito desconhecido. A taxa de letalidade tem variado muito, com média mundial por volta de 4% e taxa de transmissibilidade média de 2,6, mas também tem variado muito.

Um dos grandes problemas geradores de incertezas é o número de pessoas que têm o vírus da Covid-19 e não tem doença. Se esse número for 10 vezes maior que os já identificados, a taxa de mortalidade cai para aproximadamente 0,4%, ainda assim maior que a da gripe por H1N1. 

Um outra comparação importante de ser feita: na pandemia de H1N1, de abril de 2009 a abril de 2010 o CDC (Center for Disease Control dos EUA) estima que 12,469 pessoas morreram. Em 3 meses de existência a Covid-19 já matou quase 5000 americanos e mais de 50.000 no mundo todo.

Em resumo o vírus da Covid-19 é mais contagioso que o H1N1 e mais mortal também.

 

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