Rua Papai Noel Rosa

Um dos maiores nomes da música brasileira possui história não só como músico, mas como uma rua de Curitiba em que os moradores criaram tradições nas festas de Natal

Festas e diversão eram as características principais de uma rua de Curitiba. Sua história foi marcada por seus moradores, que, com orgulho, contam sobre festas, amizades e a história que mais marcou a rua: o Papai Noel. Além das festividades, a rua possui dois trechos desconexos. Com mais de 60 anos de existência, a rua Noel Rosa, no bairro Bigorrilho em Curitiba, ainda possui características de sua fundação.

“Quando nós chegamos aqui, era tudo lama. Era um bairro cheio de lama e ‘sabão caboclo’, como diziam”, disse Tereza Ceronato Pugsley, de 91 anos, moradora da rua desde 21 de abril de 1960 — data em que a capital do Brasil mudou, do Rio de Janeiro para Brasília —. Tereza possui registros diários, escritos pelo marido, desde 1994 até 2005, separados em cadernos.


Tereza Ceronato Pugsley, com os cadernos deixados por seu marido, em sua casa: número 119 da R. Noel Rosa. (Foto: Rhanna Sarot/RedeTeia.com)

Segundo ela, por causa da lama, materiais encomendados eram trazidos a pé da Rua Cândido Hartmann, a cerca de 120 metros de distância, pois os carros não chegavam até sua casa. 

“Pra ir fazer compras, a gente tinha que ir com aquele ‘tamancão’ de tropeiro, e mesmo assim você ficava ‘atolada’ no barro”, disse Olinda dos Santos Dubyna, 79 anos e moradora desde 1962. Olinda conta que na esquina entre a rua Cândido Hartmann e a Noel Rosa, o barro era escorregadio “como manteiga”. “Quantas vezes eu chegava na japonesa (apelido de um armazém da região) descalça e com os tamancos nas mãos, porque chegava ali e atolava”, contou dando risadas.

Olinda dos Santos Dubyna, moradora há 57 anos da casa 194. A residência original foi demolida, para dar lugar à moradia atual. Na fotografia que segura, está com sua família na antiga casa. (Foto: Rhanna Sarot/RedeTeia.com)

A rua recebeu o nome de Noel Rosa em 1965, na Lei Ordinária 2.760, assinada no Paço da Liberdade (então Prefeitura de Curitiba), pelo prefeito Ivo Arzua Pereira. Na época, existiam poucas casas, vendidas por lote. Um córrego passava na rua, que demorou anos para receber tratamento adequado. Os próprios moradores tiveram que pagar o sistema de água encanada, que só chegava até a Cândido Hartmann. Ao fim da Noel Rosa, apenas um corredor de barro dava acesso às outras ruas.  

A foto da esquerda marca o início da década de 1970, na rua em direção à Rua Jacarezinho. A da direita é a Noel Rosa em 17 de julho de 1975, quando nevou em Curitiba. (Foto: Acervo/Família Sarot)

Em direção ao Parque Barigui (criado somente em 1972), a mata fechada e natural da região prevalecia. Muitas araucárias faziam parte da vegetação, e hoje, mesmo em quantidade reduzida, ainda estão presentes. Saibro, anti-pó e asfalto vieram anos depois.

Pôr-do-sol na Rua Noel Rosa, Bigorrilho. (Foto: Rhanna Sarot/RedeTeia.com)

Festas e comemorações

As festas marcaram a memória de Olinda. Segundo ela, ainda nas décadas de 1960 e 70, a vizinhança se reunia, em meados de Junho e Julho, para fazer uma festa de São João. Cada vizinho preparava um prato típico e levava à rua, que tinha fogueira e música. Olinda era quem cuidava do “quentão”, bebida típica das festividades juninas de Curitiba. “Como era gostoso aquela época”, comentou, relembrando a união entre os moradores. “Naquele tempo a gente se divertia, não é como hoje que cada um fica ‘um pra lá, outro pra cá’”, finalizou Olinda.

Anos depois, a rua recebeu uma personalidade que virou tradição nos Natais da Noel Rosa. Milton Pugsley, marido de Tereza, começou a se vestir como Papai Noel, além de Tereza e outras duas vizinhas começaram a enfeitar as casas para a época festiva. 

Milton Pugsley, o “eterno Papai Noel” da Rua Noel Rosa. Na terceira fotografia, Milton está com a Família Pugsley, conhecida em Curitiba, nas décadas de 1930 e 40, pelo comércio de couro e artefatos feitos do material. (Foto: Rhanna Sarot/RedeTeia.com)

Papai Noel

A ideia surgiu do filho de Tereza, na década de 1970. Na época de Natal, o filho, junto com a namorada, pediu aos pais que fizessem uma festa com um Papai Noel, porém não havia nenhuma criança nas famílias, tanto Pugsley quanto da namorada. Mesmo assim, Milton aceitou a ideia, e trouxe um tecido vermelho da fábrica de couros para a esposa costurar a roupa. Além da roupa, preparam o carro e a casa, com enfeites e luzes natalinas.

“Lá na casa dos Pugsley eram todos grandes, não tinha uma criança. Mas no dia do Papai Noel, ele era recebido com palmas”, conta Tereza. Disse, também, que a filha de uma vizinha esperava ansiosa pela chegada de Milton, mesmo não sendo mais criança. 

Das pequenas visitas familiares, o Papai Noel da Noel Rosa começou a ficar conhecido. Durante os anos, os vizinhos ficavam nos portões, esperando Milton passar com o carro enfeitado, e até o contratavam para entregar os presentes nas casas. A fama se estendeu para algumas outras regiões do bairro.

Tereza com retrato do marido, de Papai Noel, entregando presentes para os netos. (Foto: Rhanna Sarot/RedeTeia.com)

“Eu lembro que quando chegava a Véspera de Natal, a gente ficava aqui na frente (de casa) só esperando para ouvir o barulhinho do sino” conta Dhafne Viana Sarot, de 25 anos, estudante de Design. Frases como “olha que bonito” e acenos para o Papai Noel eram repetidos todos os anos, segundo Dhafne, por causa dos enfeites no carro de Milton, e do próprio Papai Noel. O som do sino de Natal marcou a memória da estudante. “Era engraçado porque o barulhinho do sino ficou, e a gente ficava lembrando do Papai Noel. Então, toda vez que passava o caminhão de lixo, que eles tocavam um sininho também, a gente (ela e a família) ficava falando ‘olha o Papai Noel!’, e aí virou marca. Até hoje quando está passando a gente fala ‘olha o Papai Noel!’”, finalizou.

Dhafne Viana Sarot, aos 8 meses, recebendo a visita do Papai Noel, em 1994. “Quando ele veio aqui em casa, eu chorei de medo, porque não estava acostumada”, falou Dhafne sobre a foto. (Foto: Acervo/Família Sarot)

Durante 30 anos, Milton Pugsley espalhou o espírito natalino pelo Bigorrilho. Na rua, vizinhos se engajaram a enfeitar suas casas para o Natal, por conta da tradição criada por Tereza e suas vizinhas.

Noel Rosa

“Noel Rosa foi um grande músico, sempre gostei muito dele. Fiquei feliz da vida quando deram o nome de Noel Rosa pra rua”, disse Olinda. Ainda hoje, os moradores têm o mesmo sentimento de Olinda com relação ao nome da rua. 

Noel Medeiros Rosa foi compositor, cantor e violonista, nascido no Rio de Janeiro no dia 11 de dezembro de 1910. Com várias canções reconhecidas por todo o país — como as músicas Com Que Roupa, Conversa de Botequim e Fita Amarela —, Noel Rosa ganhou a fama, e aproveitou a vida boêmia até os 26 anos, quando faleceu no Rio de Janeiro, em consequência de uma tuberculose.

“É muito melhor que Jacarezinho”, satirizou Haroldo Sarot, de 57 anos, morador da Noel Rosa desde que nasceu. Antes de ser nomeada, a rua era continuação da Rua Jacarezinho, que se estende para o bairro Mercês.“Foi um nome importante na música do país”, ressaltou Sarot.

Tereza comentou que, quando falava onde morava, as pessoas não acreditavam que a rua pertencia ao Bigorrilho, por ser um bairro não muito populoso na época. 

O outro trecho da Noel Rosa

A rua se estende da Rua Cândido Hartmann até a esquina com a Humberto Bevervanso, mas não acaba nesse ponto. Em linha reta, a cerca de 340m, há outro trecho da rua. Segundo os moradores, um projeto municipal previa a ligação das duas ruas, como uma continuação da estrada, porém não se sabe o que aconteceu com o andamento do projeto de obra. A continuação da Rua Noel Rosa não tem saída, e tem entrada apenas pela Rua Coronel Joaquim Ignácio Taborda Ribas, próximo ao Parque Barigui, ainda no Bigorrilho. 

Esquina das ruas Noel Rosa e Coronel Joaquim Ignácio Taborda Ribas, bairro Bigorrilho, em Curitiba. (Foto: Rhanna Sarot)

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