Uma história por trás de cada volante

Cinco motoristas de Uber contam suas histórias e relatam como é a vida de um motorista de aplicativo

Você já parou para pensar que, porque estamos acostumados a fazer as tarefas no modo automático, não notamos que cada corrida pedida em aplicativos, uma pessoa se dirige até nós para nos transportar até o lugar solicitado, e não uma máquina? Estamos tão imersos em um mundo mecânico que mal cumprimentamos e reparamos na presença das pessoas que participam de algum modo no dia a dia. E é essa falta de empatia na sociedade que desperta um olhar diferente em quem percebe essa atitude. É preciso reconhecer que, independente da profissão exercida, cada um tem uma história por trás, a ser contada e respeitada. 

A seguir, conheça a trajetória de alguns motoristas do Uber de Curitiba − suas origens, dificuldades e superações − mostrando que, antes de tudo, também são pessoas.

 

Lucas Alexandre Rodrigues, 22 anos

Na manhã de um sábado qualquer, um trio de rapazes pediu uma viagem pelo Uber e Lucas aceitou. Mal sabia que o intuito da corrida era assaltar uma casa.

Lucas Alexandre Rodrigues, de 22 anos, nasceu em Curitiba, e começou a trabalhar para a empresa Uber no dia 1º de abril de 2019 (por coincidência no Dia da Mentira). O curitibano optou por essa fonte de renda por ser um emprego onde conseguiria conciliar os estudos e sua filha com a rotina de trabalho. Além de ter cursado pilotagem na Universidade Positivo incentivado por sua mãe, acabou não gostando e o concluiu mesmo assim , Lucas já foi balconista, marceneiro, frentista e supervisor. 

Atualmente, ele estuda para passar no concurso público de investigação criminal em São Paulo, seu primeiro sonho. Seu segundo é pedir afastamento para seguir a carreira na França. Apesar de já ter feito muitos amigos no Uber, Lucas ainda tem receio de passageiros grosseiros e destinos desagradáveis.

 

Denise Campitelli, motorista de Uber (Foto: Arquivo Pessoal)

Denise Campitelli, 52 anos

A simpática Denise Campitelli, de 52 anos, é gerente comercial e utiliza o Uber para divulgar a rede de hotéis para a qual trabalha. Denise relata que uma vez buscou no aeroporto um senhor executivo que estava com reserva em um hotel no Batel. Lhe entregou um cartão de visita da rede de hotéis, para que, em uma próxima oportunidade, o homem pudesse hospedar-se em algum deles. Após ter realizado mais duas corridas, ela retornou ao hotel e, para sua surpresa, verificou que o nome dele já estava na lista de hóspedes. 

A mulher nasceu no município de Jundiaí, no interior de São Paulo, e mais tarde migrou para Curitiba, em busca de ascensão profissional. Em 2017, iniciou como motorista do Uber, em busca de um complemento salarial. Como motorista, Denise ama conhecer novas pessoas, porém ainda sente uma certa insegurança diante do serviço. Além de estabelecer vários contatos, Denise já arranjou até emprego para alguns. A motorista pretende se mudar para Portugal até o fim desse ano, e lá trabalhar como Uber.

Everton Sartori, 37 anos

Everton Sartori já deu duas voltas ao mundo em alto mar. Hoje, com 37 anos, é motorista do Uber há 7 meses. Nascido em Curitiba, começou a trabalhar desde 2000, como camareiro da tripulação marinha dos cruzeiros de empresas italiana, americana e panamenha. 

Everton Sartori e sua filha, na Arena da Baixada (Foto: Arquivo Pessoal)

Sendo escalado para sua primeira tripulação, viajou para a Itália, embarcando em Veneza. Como havia intervalo de 6 horas durante seu trabalho e passavam por todos os co

ntinentes, Everton teve a oportunidade de conhecer diversas culturas de países como Grécia, Rússia, Indonésia, Canadá, Cabo Verde e Inglaterra. Havia contratos e ele tinha férias de 1 mês a cada 6 meses, quando voltava ao Brasil.

 Em 2014, quando soube que sua filha tinha nascido, estava no Japão e retornou ao Brasil, chegando 3 meses depois. Após um mês, por ser seu vício, retomou sua rotina na tripulação e logo mais interrompeu sua carreira definitivamente. 

Já no Brasil, trabalhou como taxista, e depois optou pela empresa Uber. Everton aprecia o fato de que, a cada viagem, há sempre uma nova história. Por outro lado, detesta o trânsito e algumas pessoas mal-educadas. 

Casado há 5 anos, sua ambição é arranjar um emprego fixo e utilizar seu carro somente para passeio. Everton Sartori não perdeu o gosto de navegar e ainda pretende passar no concurso público para marinha mercante.

 

Agnaldo Cordeiro Pinto, 34 anos

Agnaldo Cordeiro Pinto, enfrente à Arena da Baixada (Foto: Arquivo Pessoal)

Já quiseram transportar no carro de Agnaldo 6 sacos de cimento, e outra vez 7 indivíduos durante a mesma corrida.

Agnaldo Cordeiro Pinto, de 34 anos, sempre viajou pelo Brasil a negócios, e em 2015 escolheu uma cidade interiorana do Pará para montar uma empresa de cursos profissionalizantes, no âmbito escolar. O Uber, que nasceu em Abatiá, no norte do Paraná, se mudou para Curitiba aos 12 anos com sua família. Agnaldo sempre atuou no ramo comercial, na maioria das vezes como autônomo, vendendo livros, alimentos, e até piscinas.

Sem conseguir manter a empresa no Pará, o homem retornou à Curitiba e começou a trabalhar em um shopping. Um ano depois, pediu demissão da loja em que trabalhava e comprou um automóvel. Havia 3 meses que o Uber tinha surgido e, analisando e conversando com alguns motoristas, Agnaldo decidiu trabalhar para o aplicativo, também realizando um negócio online, como forma de complementar sua renda. 

O motorista só não gosta da falta de pontualidade de alguns passageiros. Fora isso, adora a liberdade de horário e a mobilidade da empresa Uber. Além disso, ele preza pelo contato com as pessoas, onde aprende de tudo um pouco, e amplia sua bagagem cultural. Agnaldo deseja empreender mais, investindo futuramente em outros negócios, em busca de aumentar sua rentabilidade, porque não deseja mais continuidade nesse serviço. Por enquanto, o cargo de motorista do aplicativo o ajuda a se manter.

 

Francisco Jacó Alves, 48 anos

Com um histórico de quase 9000 viagens, o antigo técnico de manutenção e atual motorista, Francisco Jacó Alves, viajou quase pelo Brasil inteiro, mas nunca precisou se envolver em brigas de casais e situações constrangedoras, como com indivíduos embriagados no Uber. O cearense brinca que no Uber, você é encarregado de ser um pouco de tudo ao mesmo tempo: psicólogo, médico, palhaço e até conselheiro. 

Francisco Jacó Alves, motorista de Uber desde quando o aplicativo recém havia entrado em funcionamento no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Francisco nasceu em 1970 no município de Jardim, interior do Ceará. Trabalhou na roça, plantando mandioca, feijão, arroz e fava. Em 1888, se mudou para a cidade de Vermelho – PE, onde trabalhou em uma fazenda vinicultora, onde as uvas eram consideradas as melhores do Pernambuco e eram exportadas para os Estados Unidos. Dois anos depois, retornou para sua cidade natal e se casou. 

Aos 24 anos migrou para São Paulo, onde trabalhou em algumas empresas como técnico de manutenção. Como técnico, teve a oportunidade de viajar para diversos lugares, entre ele

s Salvador – BA, Cuiabá – MT, Jundiaí – SP, Betim – MG, Curitiba – PR e Madrid, capital espanhola − onde ficou por 8 meses realizando cursos profissionalizantes. 

De volta ao Brasil, trabalhou em mais outras empresas, com destaque para a Petrobrás em Betim (MG).Em seguida, foi empregado em uma empresa de montagem de guindastes em Curitiba, onde trabalhou por 8 anos. Francisco acabou sendo demitido porque a empresa faliu, então comprou um carro e começou a fazer caronas para a Uber, por ter sido a saída mais imediata para se sustentar.

Assim sendo, nesse um ano e meio trabalhando como Uber, Francisco já escutou muitas histórias boas durante as corridas, e até tenta aconselhar as pessoas do modo mais adequado possível. Seu foco é continuar exercendo seu trabalho com qualidade, dirigindo com segurança e buscando agradar a todos os passageiros. 

Qual é sua opinião sobre ser Uber em Curitiba?

“Com a alta de desemprego foi uma ótima opção até como renda complementar. O Uber hoje em dia está sendo uma renda alternativa onde tem ajudado muitas pessoas na crise. ”
– Lucas Alexandre Rodrigues, 22 anos.

“Muito bom, principalmente nos finais de semana, pois temos muitos turistas na cidade. ”
– Denise Campitelli, 52 anos.

“A empresa poderia abaixar um pouco a porcentagem cobrada do motorista para ficar bom para todos. ”
– Everton Sartori, 37 anos.

“Embora você tenha a liberdade de horários, você deve ter a responsabilidade de fazer umas 50/60 horas por semana para poder ter um salário digno… Você conhece pessoas com diferentes mentalidades. Você aprende coisas, aprende sobre lugares, aprende sobre tudo… A gente se encontra com muita gente, desde deputado, cozinheira, dona de empresa, médico, comediante, até apresentador de tv. Então a gente tem contato com todo tipo de pessoa. Isso é uma parte bem legal do trabalho. Esses pontos são gratificantes ”.
– Agnaldo Cordeiro Pinto, 34 anos.

“No Uber você é encarregado de ser um pouco de tudo ao mesmo tempo: psicólogo, médico, palhaço, conselheiro… E o forte é motorista”.
– Francisco Jacó Alves, 48 anos.

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