Gaia: mãe da terra, mãe do campo e mãe solo

Campo do Monte. Campo de uma terra de castelos. Um campo que já foi palco da Guerra do Contestado. Um campo que já foi de muita gente, mas hoje é um campo delas. Um campo das mães solos da cidadezinha de Monte Castelo, no interior de Santa Catarina. Eis que na imensidão verde em meio ao trabalho braçal na terra, sob o sol, chuva, calor e frio, cabelos suados misturados ao pó e barro voam e uma canção se inicia, “Maria, Maria é um dom, uma certa magia, uma mulher que nos alerta. Uma mulher que merece viver e amar, como outra qualquer do planeta”. Em meio a essa luta encontram-se Maria, Ligia e Lucia, mulheres que só buscaram dar o melhor para seus filhos e uma vida diferente da que tiveram. 

Entre 2005 e 2015 o número de mãe solos aumentou em mais de um milhão no Brasil, segundo dados do IBGE, um número que ainda tende a crescer. Porém, as mulheres em regiões rurais – como é o caso delas – que vivem em um município de pouco mais de 8 mil habitantes e ainda em áreas consideradas rurais dentro desse ambiente, enfrentam dificuldades diferentes das encontradas por mães que criam seus filhos sozinhos nos grandes centros urbanos. Maria Pechilski tem 47 anos de vida e 38 trabalhando na roça. Aos 9 anos começou ajudando seu pai e mãe na lavoura da família ao mesmo tempo que auxiliava nas tarefas de casa e cuidava dos seus irmãos menores. Aos 12 largou a escola, aos 16 conheceu Ricardo, aos 17 casou, aos 19 apanhava do marido, aos 22 estava grávida e sozinha. 

No Brasil, uma mulher registra agressão sob a Lei Maria da Penha a cada 2 minutos, de acordo dados do 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Maria era mais uma dessa estatística, em uma época na qual nem se quer existia essa lei. “Lembro do dia que ele chegou em casa bêbado gritando. Dizia que eu tava traindo ele, mas não tava. Falava que comia o vizinho com os olhos. Então, ele me jogou no canto da cozinha, o chão era de terra batida. Eu bati a cabeça na mesa de madeira e comecei a chorar. Ele foi pro quintal, pegou o arame farpado que tinha sobrado da cerca nova e começou a bater em mim. Aquela foi a última vez que deixei um homem bater em mim”. Após esse episódio, Maria voltou para a casa dos pais sem imaginar que estava grávida. Como conta, trabalhou duro sob todas as condições climáticas plantando fumo nos terrenos do pai, até conseguir construir sua própria casa e se mudar para lá com sua filha Bruna, que até então já tinha chego nos 3 anos.

Quando foi morar sozinha com sua filha, os olhares sobre ela mudaram, as pessoas não a viam da mesma forma. “Antes eu era a mulher do Ricardo, depois voltei ser a filha do seu Mirto e por fim, a vagabunda que traia o seu marido e foi viver sozinha com a filha pra poder aprontar mais”, relembra Maria. Todos da cidade, exceto sua mãe, tinham um imaginário sombrio sobre a mulher que apenas estava tentando criar sua filha sozinha, no campo e em meio ao mato.

Hoje Bruna tem 25 anos e é enfermeira em outra cidade e afirma ter orgulho da mãe e de tudo que ela passou. “Sei que a vida dela não foi fácil e que ela foi muito julgada. Hoje eu só posso dizer que sou grata por tudo! Se eu fiz faculdade e tive oportunidade de estudar, foi graças a ela e o trabalho duro”. Maria explica que enquanto trabalhava no campo, ouvindo apenas o som do vento e dos pássaros, cantarolava uma canção a qual leva o seu nome e de muitas brasileiras “mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre. Quem traz no corpo a marca Maria, Maria, mistura a dor e a alegria”. Ela complementa afirmando que embora tenha tido vários momentos de choro de baixo do sol no qual as lagrimas se misturavam ao suor, a felicidade veio da melhor maneira possível: ver a filha crescendo e se tornando o que é hoje. 

Mas Maria não é a única Gaia encontrada no interior, no outro lado do campo encontra-se Ligia Duffeck de 77 anos que trabalhou em meio as plantações a vida toda para criar seus filhos, entre eles, Lucia Duffeck que agora tem 50 anos e teve o mesmo destino que a mãe, contudo, batalhou para que a sua filha tivesse um destino distinto.

Lucia cresceu trabalhando no campo com sua mãe e irmãos após seu pai morrer. Ligia assumiu todas as responsabilidades de casa e não poderia largar as régias dos negócios que havia construído ao lado do marido. “Minha mãe batalhou duro até conseguir comprar mais terrenos, coisa que meu pai nunca havia sonhado um dia, ela conquistou tudo aquilo sem precisar dele”, conta Lucia. 

Ligia não desistiu e aos poucos foi expandindo a lavoura e comprando tratores e outros maquinários. Entre as coisas que plantavam estavam o arroz, a soja, o milho, o tomate e o fumo. Lucia cresceu correndo entre os campos de arroz, nos quais além de trabalhar, brincava com seus irmãos. “Eu sempre quis que meus filhos estudassem, mas era muito difícil na época. Eles só conseguiriam terminar o primário”, conta Ligia. 

Entre as especialidades da família estavam o fumo de corda, um tipo de fumo enrolado e torcido, os quais eram os únicos produtores da região. Após colher as folhas que estavam maturas, as penduravam em um varal de quase 30 metros e ali ficavam até secarem e murcharem. Depois as folhas era enroladas até a grossura desejada até virarem um rolo que era levado ao sol para ser curado em um período que poderia durar até 90 dias.

Ao chegar aos 55 anos, Ligia teve que abandonar o trabalho, já que o peso do trabalho árduo durante anos no campo vinha cobrar o seu preço através de dores em todo o corpo. Então era o momento de partilhar os terrenos entre os filhos. Os três irmãos de Lucia queriam que ela arrendasse sua parte das terras (uma espécie de aluguel), mas ela foi contra e continuou trabalhando da mesma forma que sua mãe fez para criar sua filha pequena, Luiza Duffeck.

Aos 23 anos Lucia conheceu um rapaz jovem e encantador que estava em Monte Castelo apenas visitando alguns familiares, esse era José. Aos poucos foi se aproximando e caindo no charme do forasteiro, até se entregar a ele. “Eu fui boba e inocente, duas semanas depois ele voltou para o Rio Grande do Sul, de onde era, e nunca mais o vi. A família o encobertou e nunca me disse de que cidade ele era ou me passou uma maneira de entrar em contato. Eles alegavam que o filho não era dele”. A ex-virgem se via grávida e apenas com o colo da própria mãe para a consolar. 

Assim como Maria, ela sofreu preconceito por ser mãe solo, não teve apoio da família paterna, não teve sua filha registrada pelo pai e a criança nunca nem mesmo o conheceu. As lágrimas que caiam do seu rosto todas as noites antes de dormir, aos poucos deram lugar a um espírito de luta: dar o melhor para sua filha sem precisar de homem algum, tendo a sua mãe como exemplo a ser seguido.

Assim, Lucia viu Luiza crescer e brincar no mesmo lugar que ela, mas com uma diferença: a menina teve chance de frequentar a escola e concluir o ensino superior. “Minha mãe sempre disse que os estudos eram importante, mas não tivemos como terminar todas as fases. Eu lutei para que minha filha tivesse essa chance e isso é meu maior orgulho”.

Enquanto via a mãe trabalhando no campo, Luiza conta que ouvia o som do vento e torcia para que ele refrescasse a mulher com pingos de suor no rosto enquanto estava sob o sol. “Ela não deixava eu trabalhar no pesado, apenas nas atividades mais simples, pois queria que estudasse e que minhas mãos não ficassem marcadas de tantos calos iguais as dela. Mas sempre dizia que eu tinha orgulho dos calos que ela carregava na mãos, pois eles eram o que possibilitavam que eu estivesse estudando”.

Luiza ajudou a mãe até ir para a faculdade, então teve que se mudar para outra cidade para concluir os estudos. Hoje aos 27 anos, ela é professora de matemática em uma escola na região rural da cidadezinha. “O trabalho no campo me fortaleceu pra vida, tenho orgulho da minha mãe e avó. Eu também já sou mãe de um menininho de 6 anos e tento transmitir para ele tudo o que aprendi com elas”.

Marcados pela imensidão verde dos campos castelenses, essas mulheres são algumas das várias que compõe a família de Gaias existentes pelo mundo, mulheres mães das terras, das naturezas e que podem até se abalar, mas sempre voltam mais fortes. Pois como dona Maria cantarolava ao trabalhar no campo “quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida”.

 Reportagem feita em 16 de abril de 2019, para a disciplina de Narrativas Criativas – Professora Ana Paula Mira

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