Quebra-Sonhos

*Reportagem construída a partir de relatos e experiências pessoais. Por questões de segurança e privacidade, os nomes das entrevistadas foram omitidos ou substituídos por nomes de personagens de seus espetáculos preferidos. 

Em uma sala lotada com o corpo de baile da escola, as bailarinas se distribuem por ordem hierárquica pelas barras de madeira que contornavam as paredes da sala, além das móveis de metal posicionadas no centro. A regra era clara: aquela que se posicionasse mais perto da professora seria notada. Em certo momento antes da aula, Clara*, com expectativa de mostrar seu potencial, vai para o primeiro lugar, ao lado do som onde a dona escola, na aula mais prestigiada do dia, ficaria. Ao ver a menina, a dona pergunta em alto e bom tom para que toda a turma escute:

  • O que é que vocês está fazendo aqui? Para ficar neste lugar na barra você tem que emagrecer no mínimo vinte quilos. 

Constrangida, Clara volta para um canto distante da sala, no outro oposto. Segurando as lágrimas, faz todos os exercícios. As outras bailarinas fingem não ter visto a cena e o silêncio absoluto durante a aula impera. 

De nome tradicional e reputação estabelecida, a escola S. era, ou talvez ainda seja, referência em Curitiba quando se fala em escola de dança.  Na sala principal de uma das sedes, havia um espaço maior que o do palco do Teatro Guaíra, que mantinha as alunas mal acostumadas na hora de adaptar uma coreografia aos diferentes espaços. Disciplinadas pelo medo, todas enfileiradas vestidas com meia-calça rosa – rosa bebê, não salmão – com collant azul marinho exibindo no centro a logo da escola, exibem coques perfeitamente alinhados, cheirando a spray Karina e gel, com redes cor de rosa e grampos o suficiente para que nenhum coque caísse. Manequim padronizado no trinta e seis, ou não dança. Até dança, mas no canto da última fila, quase dentro da coxia. 

“Se continuarem desse jeito, ao invés de montarmos Lago dos Cisnes, teremos a lagoa dos porquinhos” – publicou a dona uma vez no grupo que a escola mantinha com as bailarinas em rede social ao ver as alunas reunidas na cantina comendo um bolo de aniversário. 

Apesar de frios, os vestiários proporcionavam um momento de refúgio. Algumas aproveitavam para comer escondidas, outras para estudar entre uma aula e outra na carga horária desproporcional à idade, variando entre 12 e 17 anos. Era também ambiente para comentários maldosos falando umas das outras, tornando-se o assunto sempre aquela que estivesse ausente. Tudo isso fomentado por professoras dia após dia. Esporadicamente, o ambiente era de cumplicidade, um momento para compartilhar mágoas e sonhos para o futuro, mas entre grupos pequenos e seletos de meninas que se apoiavam. Um desejo comum era dançar no Bolshoi em Joinville, protagonizar um grande ballet, comprar uma sapatilha de ponta líder de mercado, e por fim e mais simples: ganhar um destaque na coreografia de fim de ano. 

Mas, para além do vestiário, as alunas eram divididas em dois grupos: as bolsistas e as pagantes. O projeto social da escola de dança oferece aos alunos e alunas de escola pública a oportunidade de uma bolsa de estudos. A justificativa social permite um grande desconto no imposto de renda da escola, mas nos espetáculos as alunas bolsistas eram obrigadas veladamente a vender ingressos. Além disso, em sala de aula, uma pressão em mostrar que valorizavam a oportunidade: seus cabelos deveriam seguir o padrão, sem mudar a cor antes de validar com a professora; não poderiam faltar aulas de dança por causa dos estudos ou consultas médicas. “Mas não tinha outro horário para marcar?”. Maquiagem? Nem pensar. Nas aulas especiais de dia das mães ou dos pais, as meninas e meninos eram cobradas caso seus pais ou responsáveis não pudessem aparecer, muitas vezes por causa do horário de trabalho, ou se aparecessem e não fossem atrás da professora agradecer pela oportunidade. Um regime militar de cobrança .  

De certa forma, “adotadas” pela coordenadora do projeto, a professora B* as protegia em alguns níveis, ou pelo menos nos que podia. Acolhido por ela, um aluno bolsista que depois seguiu contratado pelo ballet Bolshoi de Joinville, morava com sua mãe e três irmãs na região metropolitana de Curitiba. Levava cerca de duas horas para chegar no ballet todos os dias, faltando-lhe tempo e dinheiro para almoçar. Generosamente, a professora lhe oferecia almoço em sua casa, que ficava a cinco minutos de caminhada da escola. Ao descobrir, a outra professora com quem o bolsista tinha aulas gritou com ele em frente à turma inteira para que parasse de ser “pidão” e “abusar” da boa vontade dos outros. Depois disso, o bailarino passou a almoçar escondido na professora B*, mas foi deixando aos poucos por medo.  

Com as pagantes, a história era diferente. Nas datas comemorativas, suas mães eram recebidas com abraços e largos sorrisos pela professora, com um suposto carinho e simpatia. Em apresentações eram colocadas em quantas coreografias pudessem, mediante o pagamento dos figurinos, patrocinadas pelos pais e mães de classe média ou média-alta.

Um tutu, saia armada típica dos figurinos de ballet, usa em média 14 metros de tule para um adulto e 9 metros para uma criança. Avulso, o metro do tecido custa, em média, R$ 2,50, mas em grande quantidade, como para os figurinos de uma escola inteira, o valor baixa. Nos espetáculos, as alunas deveriam pagar uma taxa de participação, figurinos de R$ 300,00, e ainda comprar um determinado número de ingressos. 

Desde pequenas, todas eram ensinadas a fazer reverência no fim das aulas, um costume bastante comum nas escolas internacionais de dança para agradecer aos professores. Mas, dependendo de quem fosse o mestre, se tornava um sinal de submissão. Pé direito atrás, braços alinhados, coluna prolongada e cabeça baixa. 

Em termos de saúde mental, ou o desrespeito a ela, o tratamento era quase o mesmo para todas as alunas. O bullying era rotina, não apenas entre colegas, mas sim praticado por algumas professoras. Muitas vezes de forma sutil, acompanhado de um “não conte para sua mãe que te disse isso, quero teu bem…”. Em redes sociais, fotos dançando recebiam correções via comentários nada motivadores e às vezes mensagens inbox solicitando o apagamento de postagens. “Eu sou a sua professora, pega mal para mim quando você posta uma foto com o joelho errado”. 

O ritmo imposto era o mesmo de uma companhia profissional: aulas emendadas das 13h às 20h30, ou até mais tarde em época de espetáculo. Isso também ocorria às vezes simplesmente porque a dona resolveu que assim seria. Nos fins de semana, era recorrente ter ensaios aos sábados à tarde e aos domingos pela manhã, mas não em horário de domingo: desde as sete, todas deveriam estar na escola. E “ai” de quem estivesse com cara de sono, não estivesse bem ou não pudesse comparecer por qualquer motivo.

Infelizmente, participar com afinco dos ensaios não era o suficiente. Existia uma cobrança psicológica, realizada com meninas a partir de doze ou treze anos para que tivessem o físico perfeito. Maior do que a palavra “abusiva” pode contemplar, comer era pecado. Simplesmente comer, não a gula. Na cantina, olhares acusadores. Em redes sociais, mensagens no privado. Em casa, o sentimento de culpa. Uma breve conversa ao fim da aula, um elogio às alunas mais magras por estarem em forma, um comentário pejorativo direcionado às alunas menos magras sugerindo que não teriam força para subir nas sapatilhas de ponta. 

Giselle* encarou essa pressão diariamente durante alguns meses. Tomava café antes de seus pais e jantava depois. Com o tempo passou a trocar café e janta por chá, não matava a fome, mas aos treze anos deveria resolver para ser magra. E emagreceu ao ponto de passar do manequim 38 para 34, mas não ao ponto de se sentir bem ao dançar. Continuava se sentindo feia e errada. Emagreceu ao ponto de chorar antes e depois das aulas, de ter crises de ansiedade todos os dias, de não querer mais fazer aquilo que mais amava: dançar. Por sorte, emagreceu ao ponto de sua mãe perceber que algo de errado estava acontecendo, e intervir salvando a filha de algo que poderia se tornar um sério transtorno de saúde.

As sapatilhas de ponta, gloriosas e aparentemente delicadas, são o objeto de desejo de qualquer bailarina, principalmente das mais jovens. São a meta e a expectativa de profissionalismo. No começo as dores são normais, tal qual as unhas encravadas, bolhas e meias manchadas de sangue. Ou pelo menos é o que é dito. A adaptação dos pés às sapatilhas é um processo gradativo e um começo equivocado pode comprometer todo o desenvolvimento da atividade. A pressão do peso de um corpo inteiro sobre apenas os dois dedos dos pés é grande, o que pode causar má formação de ossos e juntas de um pé ainda em crescimento. O saudável seria esperar até após a primeira menstruação para começar a usar, mas a maioria começa aos onze ou doze anos de acordo com o ritmo da turma e a avaliação de cada professor. 

Até na escolha das sapatilhas as bailarinas eram pressionadas. Geralmente começam pelas de marca nacional, a partir de cem reais. Já as cobiçadas Gaynor Minden, da marca estadunidense, começam em 500 reais. A qualidade é maior, por ter diversas variações de formatos disponíveis, assim como a durabilidade. Para algumas professoras, as marcas nacionais eram medíocres, e as estrangeiras representavam status dentro da escola. 

A preparação para calçar as sapatilhas é grande: esparadrapos envolvendo bolhas e calos, ponteiras – de pano ou de silicone – servem para proteger os dedos e amenizar a pressão entre os pés e as sapatilhas, e meias, para agradar à estética. Mesmo assim, depois de duas ou três horas seguidas de ensaios, os esparadrapos precisavam de troca, as ponteiras já não eram o suficiente e as meias acabavam manchadas de sangue. Aquelas que eram vistas como fracas, e talvez fossem as mais fortes, soltavam lágrimas caladas. Todas percebiam, inclusive a professora. Ninguém fazia nada, o ensaio, assim como o show, tinha que continuar. 

Odete* não sabia explicar o porquê, mas sentia medo de ir aos ensaios gerais. Aos seis anos, sua família se mudou para Curitiba, e a levaram para escola referência da cidade. Quando chegou foi para a segunda unidade, onde teve aulas com uma professora que futuramente abriu sua própria escola de dança, levando boa parte das alunas consigo. 

A fama de rígida que a dona carregava já era conhecida, mas sempre associada à rigidez do próprio estilo. Aos oito anos, Odete precisava emagrecer por motivos de saúde, mas continuou dançando normalmente. Em um ensaio de fim de ano, ela –  que nunca fora muito alongada – começou a se aquecer. Ao ver, a dona pediu que ela repetisse o gesto e então “congelasse” na pose, ato bem comum para que o professor explique ou corrija algo nas alunas. 

  • Gente, olhem isso – falou a dona chamando a atenção de todo o elenco – vocês têm que se esforçar muito, fazer muito exercício e comer pouco para não ficar como ela.

No dia seguinte, chamou a mãe de Odete para uma conversa em que falou que a menina deveria sair do ballet por falta de porte físico para o esporte. Indignada, a mãe seguiu o “conselho”. Anos mais tarde, então para dançar jazz, Odete retornou à escola por falta de opção. “Você não pode mudar de área de dança sendo que não nasceu para isso. Deve ficar no fundo. Nunca vai chegar no nível”, escutou diretamente da dona da escola no primeiro ensaio geral. 

Em decorrência disso, a bailarina desenvolveu uma série de distúrbios alimentares ao longo da adolescência. Sua mãe chegou a receber ligações de parentes preocupados com o baixo peso de Odete ao verem fotos em redes sociais. Ainda assim, para ela o peso nunca seria ideal. 

Quando a antiga professora, por quem mantém um carinho enorme até hoje, abriu a própria escola, Odete não hesitou. Foi uma das primeiras a se matricular. Medora* também não demorou. Tinha sido bolsista durante anos e, apesar de nunca ter lhe acontecido algo grave dentro da escola, lembra-se de ter presenciado diversas cenas absurdas. Aprendeu muito durante os anos que dançou lá, e isso reconhece com orgulho, mas como bolsista não poderia faltar aula sob nenhuma condição. 

Aos 18 anos ela começou a trabalhar e fazer faculdade, e a falta de tempo a fez parar. Quando resolveu voltar para a dança, surgiu-lhe a oportunidade na escola nova junto com Odete. A transição foi seguida de mensagens ameaçadoras, a chamando de ingrata múltiplas vezes, que tinham como remetente e dona da escola anterior. Hoje, Medora é formada em dança e dá aulas para adultos.

Ataques repetitivos e  enredos tão parecidos entre depoimentos diferentes fizeram Aurora.* considerar muito antes de aceitar dar entrevista. Anos e anos após ter saído da escola, hoje nutricionista, Aurora trabalha com distúrbios alimentares, diretamente ligados a questões psicológicas. “Eu aceito dar essa entrevista com o objetivo de dar um alerta para características de abuso físico e psicológico. Em qualquer relacionamento interpessoal reconhece-se que determinadas condições são aceitas. Ninguém colocou uma arma na minha cabeça e me obrigou a aturar aquela situação por anos, eu me coloquei naquela condição”, posiciona-se. 

A antagonista de todas essas histórias, a dona da escola, reúne aos olhos de Aurora* uma série de características de uma autoestima frágil. Apesar de acreditar em sua autoridade inquestionável, perde a cabeça rapidamente e apresenta zero reconhecimento pelo sofrimento alheio. Narcisista, no mundo da dança e no corporativo, segue em busca de uma perfeição inalcançável: não havia ensaio que fosse o suficiente ou dedicação expressiva que bastasse.

Em contato com as jovens bailarinas, com desejo enorme de agradar e alcançar os patamares impostos, o cenário se tornou perfeito para a construção de um relacionamento abusivo. É assim que se sustenta uma convicção dentro de uma escola, ambiente educacional e amador, não profissional, de que é necessário pesar menos de 50 kg para dançar, dentre outros absurdos.

Após quase meio século de história, a escola mantém-se firme e forte. Novas matrículas surgem, velhas se mantêm, e algumas são canceladas. Apesar disso, a reputação não está intacta.

Reportagem  feita em Junho/2019, para a disciplina Narrativas Criativas – Professora Ana Paula Mira

 

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