Universos de papel

Fui fundada em 1857, mas não aqui. Outros treze lugares já foram meu lar. Cento e sessenta e um anos se passaram, e ainda me sinto nova, a cada novo universo que chega às minhas prateleiras. Bem no centro da cidade de Curitiba há 64 anos, gosto de ser a calmaria em meio ao tumulto da capital. 

Nesse tempo recebi muitas mudanças nos meus 8,5 mil metros quadrados: as janelas e paredes receberam novas cores, chegaram novas prateleiras, poltronas e cadeiras de madeira rústica altamente estofadas. Sofás espaçosos e mesas novíssimas, e até aos computadores tive que me adaptar, tudo diferente do que era oito anos atrás. Mas uma coisa permaneceu: o silêncio. Aquele que já se espera de uma grande biblioteca, e que aqui é quebrado apenas pelas eventuais buzinas agudas das motocicletas, pelos ônibus passando na Rua Cândido Lopes ou pelo som dos ventiladores de teto. Este nunca para. Há também aqueles dias em que manifestantes ou fãs, à espera do ídolo no hotel em frente, preenchem as altas salas com gritos empolgados.

Às oito e meia da manhã, seis dias por semana, abrem-se minhas portas, assim mesmo, como um grande castelo a ser desvendado a cada nova página que se abre. Antes mesmo de isso acontecer, os jornais do dia já são entregues aqui. Títulos como O Estado de S. Paulo, Folha, Valor e Placar, são o motivo das primeiras visitas que recebo na grande sala à direita do balcão de empréstimos no andar térreo, uma das salas mais frequentadas de todo o prédio. A logística é meio confusa, mas os colegas de poucas palavras, já habituados com o revezamento dos impressos, folheiam revistas e jornais vencidos enquanto aguardam sua vez, o que me rende alguns sorrisos matinais. Muitos rostos se repetem por aqui todos os dias nos mesmos horários. Nos tornamos próximos.

Apesar de eu ter setecentos e trinta mil volumes, entre livros, revistas, jornais, DVDs, documentos e gibis, sei que seria de grande audácia querer que todos me conhecessem por inteiro, mas possibilitar a democratização da leitura e cultura paranaense é um dos meus maiores orgulhos. E esses títulos diários trazem até mim pessoas que talvez não me encontrassem em suas pesadas rotinas, ou que viessem só pelo cansaço, aproveitar o silêncio e o estofado para repousar. Por isso a sala dos periódicos é um espaço pelo qual guardo imenso carinho. Ali circulam pessoas de todas as classes, nível intelectual, área do conhecimento e idade, que chegam aqui só para folhear as páginas cinzentas de ontem, já sujas e manchadas pelo manuseio.

Do lado esquerdo no andar térreo talvez seja o meu local favorito. Além dos livros de poesia e literatura, está a sala das crianças. Aqui também vêm muitos visitantes, mais por obrigação em ler Morte e Vida Severina  ou Clara dos Anjos  para algum vestibular do que para apreciar os livros do americano Edgar Allan Poe, na última prateleira do mezanino, ou qualquer outro título, apenas pelo prazer da leitura. 

Outros vêm, ainda por um motivo mais banal, mas nem por isso menos nobre: tirar um cochilo nas confortáveis poltronas verdes-oliva que vieram com as obras de 2016. A qualquer hora do dia eu observo algum leitor que se cansou da leitura e fechou os olhos por alguns instantes, ou aqueles que nem sequer pegaram um livro, pois caíram no sono antes mesmo de escolher um título entre tantos. Nesse mesmo salão estão os maiores autores brasileiros, romancistas, poetas e os livros mais procurados por aqui. Entre eles “Claro Enigma” de Carlos Drummond de Andrade e “Os dois” ou “O inglês maquinista” de Martins Pena.

Gosto quando, no fundo do salão de literatura, na colorida sala infantil, as escolas trazem seus alunos para desfrutar do meu acervo e conhecer minha história. As visitas são agendadas e orientadas pelos estagiários dessa divisão, e além de conhecer os livros, as crianças descobrem tudo o que podem fazer enquanto estiverem na minha companhia, em todas as atividades que acontecem nos três andares. Elas enchem as mesas com suas mochilas e lancheiras, e vão tirando pacotes de salgadinhos e bolachas recheadas. Reviram, curiosas, as minhas prateleiras, que são dividas em faixas etárias, descobrindo títulos como “Os patins de Sebastião”,A bota e a enxada”, “O pintinho ruivo de raiva” e “Um amor de botão”, mas nada parece ser mais atraente a elas do que o delicioso lanche. Sentadas nas almofadas de algodão, elas enchem os estagiários de perguntas. Gosto da sede que têm em conhecer cada pedacinho de mim.

Almerinda não quis esperar a escola apresentar meu universo ao filho de três anos de idade, e, pelo menos uma vez por semana, sempre está aqui com Rafael pra passar o tempo enquanto espera o filho mais velho sair da aula de artes. Ele ama o livro do carneirinho, além de revirar as peças nos tabuleiros de xadrez, pelos quais inclusive já passaram campeões paranaenses que, ao contrário de Rafael, se concentravam nas explicações dos monitores e tornaram-se aqui grandes jogadores. Apesar de brincar e ter contato com a leitura pelo Kindle em casa, aqui, Rafael e sua mãe podem viajar num universo que se pode tocar e folhear.

Apesar de ninguém ver, no subsolo vivem muitas histórias além dos móveis velhos, e livros que já não podem ser emprestados. Lá, além dos armários e do refeitório dos funcionários, fica a divisão técnica onde trabalha a Neiva. Eu e Neiva nos conhecemos quando ela ainda era adolescente, recém chegada de Nova Prata do Iguaçu, cidade onde nasceu no interior do estado. Ela veio para Curitiba estudar biblioteconomia na Universidade Federal do Paraná, e foi aí que nos encontramos, e ela decidiu que iria trabalhar comigo.

 E assim foi, Neiva é funcionária da Biblioteca Pública do Paraná há 33 anos, e apesar de não ter contato com meus visitantes, é fascinada pela forma democrática que as bibliotecas dispõem seu espaço e oportunidade de aprender, já que na sua cidade de origem os livros eram uma realidade distante. Neiva é uma das responsáveis pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, que administra os quase 500 pedacinhos meus espalhados pelo estado, replicando um modelo de gestão que me tornou motivo de orgulho para os paranaenses.

As pessoas que trabalham aqui são apaixonadas pelos livros, e me conhecem muito bem. Como o Gabriel, que trabalha na divisão de Documentação Paranaense, no primeiro andar. Ele conta com orgulho, sempre que procurado, sobre todo o patrimônio documental do nosso estado que vive aqui, em uma das minhas salas. Nessa sala vêm pesquisadores de diferentes estados e até de outros países, e alguns viram frequentadores assíduos por meses, até finalizarem suas pesquisas. Temos 900 títulos de jornais, com quase todas as edições já publicadas, incluindo a primeira edição do primeiro jornal paranaense, o Dezenove de dezembro, de 1854.

Aqui ficam todos os diários oficiais do estado, antes chamados de relatórios provinciais, recortes e livros que contam a história do nosso estado, além de livros escritos por autores paranaenses sobre a história e cultura do estado. Aqui eu já recebi arquitetos que escreveram livros sobre os prédios curitibanos e também já recebi uma garota, que procurava informações sobre seu pai. Ela não o encontrou, mas descobriu nos arquivos e recortes que seu avô teve uma morte trágica, estampando alguns jornais da época.

O Bruno também fica aqui. Ele não sabe trabalhar com outra coisa a não ser bibliotecas. Chegou até mim ainda no ensino médio, como estagiário, e ficou alguns anos trabalhando com as crianças. O tempo é tão ingênuo que trouxe a Bianca, que frequentava a sala das crianças quando pequena. Ela participou de muitas atividades ainda coordenadas pelo Bruno, e hoje é nossa estagiária, reconheceu o Bruno assim que chegou aqui.

O Bruno já passou noites com as crianças no projeto Uma Noite na Biblioteca, e lembra-se do garoto que, apesar de frequentador assíduo do salão infantil, nunca dizia seu nome, com medo de ser encontrado pela família. Ele estava desaparecido fazia algum tempo, fugiu de casa, mas não hesitava em passar algumas tardes comigo, escrevendo poesias e fazendo desenhos.

Tudo aqui parece levar mais tempo do que o habitual, mas os meus cento e sessenta e um anos de silêncio me tornaram mais paciente, e hoje já não me importo mais com a velocidade do antigo e estreito elevador de madeira, compartilhado por leitores e carrinhos que carregam os livros e materiais de um andar ao outro. Mas me alegro ao ver garotos como o Vinicius, que foge à regra da tranquilidade dos meus ambientes com sua energia. 

Ele me conheceu em 2014, quando ficava comigo após a escola esperando seu pai chegar, e alguns meses depois, tornou-se um de nossos estagiários. Animado com todas as atividades oferecidas por aqui, ele participou da Oficina Permanente de Poesia, promovida pela Academia Paranaense, mesmo não se sentindo tão confortável sendo o “único jovem da turma” como ele gosta de lembrar. Nessa época, durante seu ensino médio, o ainda garoto começou a escrever as poesias que estariam no seu livro Sonetos, sonetos, poemas à parte, lançado aqui mesmo, no auditório Paul Garfunkel, que já recebeu grandes autores. Vinicius me transformou em poesia, e hoje eu tenho orgulho de ter seu nome estampando uma das capas nas minhas prateleiras.

 

À biblioteca Pública do Paraná

(Vinicius Edart)

Como é bom ficar brincando

Como o sol deitado na janela

Ver a biblioteca se formando

E se tornando cada vez mais bela

Alguns dias pelo centro passeando

Passo em frente e não adentro nela

Sinto meu peito a chamando

Implorando para brincar com ela

Toda hora me divirto estagiando

Quantas aventuras houve nela

E às vezes me pego solto pensando

Como a deixar, doce donzela

Se cada dia estamos regando

E podando cada galho dela?

 

Me reinventei, depois de fazer parte da vida de tantas pessoas. Hoje não sou só a Biblioteca Pública do Paraná, hoje sou cinema no primeiro andar com a sessão multimeios, sou escritório de registro de direitos autorais, sou teatro, sou acervo, e sou até um café, apesar de ainda estar tentando me habituar ao cheiro de queijo tostado e cafeína no hall térreo. E assim como eu trouxe os livros comigo, os livros me trazem todos os dias cerca de dois mil visitantes, ávidos em me conhecer por dentro, seja para um aconchegante cochilo nas poltronas ou para lançar um livro de poesias, nunca estou só. Muitos acabaram fazendo de meu espaço externo seus lares, já que vivem na rua, e passam seus dias em volta de mim. Gostaria de ser mais para eles, mais que os banheiros e bebedouro no andar térreo que utilizam quando necessário. Mas já que não somos tão próximos, me alegro em, de alguma forma, ser morada de alguém.

No final de uma sexta-feira qualquer, quando Curitiba e o sol começam a se pôr, o silêncio já não reina mais. Foi quebrado pelo tilintar de xícaras vindas do Café da Bilbioteca e pela voz dos músicos que se preparam para tocar, enquanto afinam seus instrumentos. O show faz parte do projeto Música na Biblioteca, que acontece às sextas-feiras e procura valorizar artistas locais.

 Agora algumas pessoas já se acomodam nas cadeiras distribuídas em fileira para assistir à banda Mandala Folk. Finalmente agora o saguão e meu coração estão cheios. Pessoas que andavam despreocupadamente pela calçada entraram só para apreciar a música, e a banda entoava canções de inspiração irlandesa e celta, que preencheram o andar térreo com sorrisos cansados da platéia. Alguns se arriscaram até a rodopiar pelo meu grande salão, se deixando levar pela animada canção em um fim de tarde, e vi no rosto daquelas pessoas que, em mim, viram talvez a melhor forma de terminar seus dias.

 Elas voltaram para casa, e a mim, resta a companhia de incontáveis letras que estampam as milhões de páginas dentro de mim, e o ecoar de mais um dia em que pude fazer parte da vida dos curitibanos. Fecham-se minhas portas mais uma vez, e agora repouso, silenciosa. Sou uma senhora biblioteca, mas assim vazia não sou nada. Universos só passam a ser universos quando alguém os descobre, e termino o dia com a certeza de que amanhã passo a ser universo de outras pessoas. Não me falta nada, as palavras e realizações que por aqui passaram me preenchem, me significam e me amanhecem outra vez.

Reportagem  feita em 30/09/2018, para a disciplina Narrativas Criativas – Professora Ana Paula Mira

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