“Pai, onde está a mamãe?”

A história de crianças e adolescentes que presenciaram a violência doméstica e o feminicídio.

Os gritos ecoavam por toda a casa. Batidas nas portas, tapas, socos e mais gritos. Aquela cena já era comum desde os sete anos de idade, mas naquele dia foi diferente. Meu pai estava enforcando minha mãe contra a parede enquanto ela, roxa, pedia ajuda. Sem pensar eu entrei no meio e separei os dois. Depois de receber alguns arranhões e tapas, meus pais estavam em cômodos diferentes. Eram 13 horas de uma quarta-feira. Eu tinha 17 anos e estava no terceiro ano do ensino médio. Precisava voltar para  a escola e estudar no contraturno, mas pela primeira vez na vida eu tive medo de sair de casa e deixar minha mãe sozinha. Após horas de brigas, tapas e discussões, ela estava deitada na cama. Os olhos cheios de lágrimas olhavam para um além distante e vazio. E então, entre um soluço e outro, ela disse: “Ele vai me matar”. 

Fui para a escola após ela muito insistir, mas entre matemática, português e história, a única coisa que eu pensava era: “Será que minha mãe vai estar viva quando eu voltar?”

Esse foi um dos inúmeros dias em que a violência doméstica esteve presente na minha casa. Dias que deixaram marcas psicológicas e físicas, como cicatrizes no braço, resultado das vezes em que eu, como filha, tive que separar as brigas dos meus pais. Mas há feridas maiores que permanecem com os filhos por toda a vida. 

A advogada Leolina Couto Cunha faz parte da ACRIDAS, uma organização que acolhe crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. São crianças que tiveram a infância abalada pela violência física, sexual, e pela morte. A morte da mãe. Em dezembro de 2017, uma menina de três anos de idade foi encontrada mamando nos seios da mãe já morta. O marido teria espancado a mulher até a morte e fugido. A criança ficou sozinha com o corpo da mãe por 24 horas, até que os vizinhos ouviram o choro e arrombaram a porta. A menina estava suja, perdida e confusa. Chorava de fome e, naquele momento, mamava nos seios da mãe já sem vida. Infelizmente esse não é um caso isolado. Diariamente a ACRIDAS recebe crianças que viram a violência de perto, como os dois irmãos de 8 anos que viram a mãe ser morta a machadadas pelo próprio pai. 

Esses meninos viraram um robô. O olhar perdido, sem expressão. Imóveis com os ombros caídos. Não comiam, não bebiam, não choravam. O choque provocado por aquela cena era tão forte que tomou o brilho e a vida dos olhos. Leolina conta que o acompanhamento psicológico e psiquiátrico dessas crianças é de extrema importância porque as consequências são graves e preocupantes. No caso destes meninos e da menina de 3 anos, não houve sequelas futuras. O tratamento foi longo, mas a vida voltou para aquelas crianças e hoje moram felizes com outras famílias. O que preocupa são as violências dentro de quatro paredes, das quais a polícia e as instituições de apoio não têm conhecimento.

Rodrigo* ainda mamava na mamadeira quando presenciou pela primeira vez uma briga entre os pais. Ele não lembra quantos anos tinha na época, mas teve uma infância marcada pela violência. As tias contam que o Antônio*, pai de Rodrigo, era um dos homens mais agressivos que elas já viram. “Ele batia na Joana* por qualquer coisa. Se ele chegasse em casa e encontrasse roupa suja, louça na pia, ou se a comida não estivesse pronta, ele batia nela até não aguentar mais. Aquela mulher sofreu demais.”

A história se passa na década de 80 e o machismo patriarcal reinava na casa de Rodrigo. “Antônio era extremamente machista e autoritário. Lembro que por várias vezes ele proibia a Joana de ir até o quarto dos filhos à noite quando eles estavam chorando de fome ou com a fralda suja. As crianças choravam até cansar e dormir”, conta uma das tias. 

Joana morreu vítima de malária quando Rodrigo tinha cinco anos e, tempos depois, Antônio sofreu um acidente de moto e faleceu, deixando o adolescente de 12 anos órfão de pai e mãe. 

Hoje, Rodrigo é aquele homem que você conheceu no começo da reportagem. O que estava enforcando minha mãe. Meu pai vem de uma família violenta e de uma infância e adolescência marcadas pela ausência. O pouco contato que ele teve com a violência ainda quando criança pode ter desencadeado os comportamentos agressivos que ele apresenta hoje.

Quando uma criança vive em um lar violento, e vê diariamente o pai bater na mãe, isso afeta o comportamento que ela terá na vida adulta. A psicóloga Ana Lúcia Cavalcante diz que o menino que cresce em um contexto de violência tende a reproduzir as ações dos pais. “Para a criança aquilo é normal. As referências de relacionamento entre homem e mulher serão aquelas que ela viu na infância.” Leolina ainda diz que as crianças podem ter duas reações: toma consciência de que aquilo é errado e quando está em um relacionamento busca ser o completo oposto do que o pai; ou se torna o agressor através de uma construção no inconsciente que começou ainda na infância. Mas esse é um contexto dado aos meninos. 

As meninas que crescem vendo a violência doméstica não tendem a se tornar violentas na vida adulta, mas ocupam o lugar de vítima e se conformam com relacionamentos abusivos por achar que essa é uma realidade normal dada a todas as mulheres. Ela acredita que o homem tem poder sobre ela e aceita quando o namorado, noivo ou marido a proíbe de trabalhar. Ou manda ela trocar o vestido porque ela parece uma puta querendo chamar a atenção dos outros homens na rua. Ou, então, acha normal ser agredida porque ela não fez o seu “papel de mulher.” Segundo Leolina, mais de 70% das mulheres que viveram um contexto de violência na infância tendem a buscar nos companheiros o mesmo perfil do pai. 

O fato é que a violência doméstica não surge do nada. Ela é passada de geração para geração. As crianças que presenciam a violência entre os pais hoje terão dificuldade em se relacionar com outras pessoas amanhã, podendo ser futuros agressores, vítimas, ou ter o psicológico tão afetado a ponto de não conseguir se relacionar com ninguém por medo.

Adriane Lindenberg é filha da Adelaide Lindenberg, uma senhora de 84 anos que teve o casamento marcado pela violência. A vida dessas mulheres é retratada no documentário “A violência contra a mulher é uma história real”, produzido pelas estudantes de jornalismo Maria Claudia Batista, Giullia Buch e Hellen Barbosa. 

Sentada na cozinha, na frente de um fogão a lenha, Adelaide lembra do passado violento: “O ronco foi a melhor melodia que eu já ouvi na minha vida.” Ela morava com o marido e os filhos em uma casa no interior do Paraná, na cidade de Rio Negro. Durante o dia, o marido trabalhava e Adelaide aproveitava esse tempo para dormir e descansar da longa noite que teve. “Eu escondia todas as facas da casa porque tinha medo que ele pudesse me matar enquanto eu dormia. Então passei a trocar a noite pelo dia e ficava acordada a noite toda porque tinha medo do que ele pudesse fazer comigo e com meus filhos.” 

Foi nesse cenário que Adriane cresceu. Emocionada ao lembrar do passado, ela conta que por várias vezes viu o pai xingar e agredir a mãe, tanto fisicamente quanto psicologicamente. 

ADRIANE LINDENBERG

Eu comecei a entender a situação com seis, sete anos. Tudo na minha infância foi precoce. Por várias vezes eu tinha que pegar o caminhão e dirigir até o bar para buscar meu pai que mal conseguir andar de tão bêbado. Dirigia todos os tipos de automóveis com apenas sete anos. E quando ele chegava em casa, minha mãe já mandava eu e meus irmãos para o quarto. Era difícil para nós ficarmos escondidos no quarto sabendo dos riscos que ela corria, mas a gente ficava lá. Prestando atenção em cada barulho, tapa, grito… Até que eu e meu irmão começamos a interferir. 

A gente entrava na briga em defesa dela, mas chegou um momento em que eu não aguentava mais aquela situação. E então, eu achei uma fuga para tudo o que eu estava vivendo. Eu casei para sair de casa. E acredite, por eu não aguentar um pai bêbado, acabei casando com um homem que também era alcoólatra. Ele não era violento como meu pai, mas já era o suficiente para eu me divorciar.

Acredito que todo o sofrimento que vi minha mãe passar quando era criança interferiu completamente na minha vida. Faz anos que eu não me relaciono com alguém. 

Por medo. 

Medo de me envolver com alguém e passar por tudo aquilo de novo. Medo de ter na minha vida alguém igual meu pai. Medo de sair de casa e deixar minha mãe sozinha. Medo do que ele possa fazer para ela se eu não estiver aqui. Eu saí de casa para casar, mas voltei para cuidar da minha mãe. Tenho medo do que meu pai possa fazer pra ela porque, se a gente facilitar, ele bate nela. E lembrando, ela tem 84 anos. Então eu jamais vou sair daqui, ter outro relacionamento e deixar ela sozinha com ele. Jamais. Não confio. 

Fico pensando se as coisas seriam diferentes se alguém tivesse ajudado. Falo isso porque a sociedade sabia. Sabia que minha mãe sofria em um relacionamento com um homem alcoólatra e agressivo e não faziam nada. Ficavam naquela ideia de “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.” Se as pessoas tivessem denunciado, dado apoio, ajudado, o meu passado teria sido diferente. Mas eu procuro não pensar no meu passado. Não pelo que eu sofri, mas pelo que eu vi a minha mãe sofrer. 

Os gritos ecoavam por toda a casa. Batidas nas portas, tapas, socos e mais gritos. Aquela cena já era comum desde os sete anos de idade mas naquele dia foi diferente. Foi o dia em que eu tive consciência do quanto aquilo me afetava. Do quanto minha mãe sofria e do quanto aquilo não era normal. A advogada Leolina diz que muitos fatores podem ajudar uma criança e um adolescente a superar uma vida marcada por um contexto violento. 

— Quando as crianças pensam “vou fazer diferente, não quero isso pra minha vida”, elas quebram o ciclo de violência passado por várias gerações. Infelizmente, não são todas que conseguem.

—  Por quê? 

— Falta de acompanhamento. O que chega pra gente são os casos extremos que envolvem feminicídio. Após muito tempo de análise psicológica e até mesmo psiquiátrica, essas crianças conseguem seguir em frente sem sequelas. Mas as crianças que veem a violência diariamente não têm apoio. O conselho tutelar não fica sabendo. A polícia e as instituições de acolhimento também não. E como as crianças vão saber que aquilo é errado e mudar o pensamento se não tem quem fale?

—  E como a sociedade pode ajudar? Como ajudar essas crianças e evitar que reproduzam as ações dos pais?

—  Interferindo. A sociedade precisa interferir, denunciar, debater e conscientizar. A criança que vive a violência precisa de ajuda tanto quanto a mãe. Por isso é importante que as pessoas metam a colher, discutam a violência de gênero e, principalmente, denunciem. Liguem no 180. Ajudem as crianças e mulheres que pedem por socorro. A família brasileira está doente e precisamos acolher as crianças e adolescentes que são vítimas da violência. 

*Pseudônimos para proteger a identidade das fontes.

Reportagem  feita em 18/04/2019, para a disciplina Narrativas Criativas – Professora Ana Paula Mira

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