Jornalista aborda milícias digitais na abertura do Litercultura

Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de S. Paulo,  falou sobre ataques na internet e fake news, na abertura da sétima edição do Litercultura, em Curitiba

“Demonizar o estrangeiro sempre foi um recurso usado habilmente por políticos. Nada mais fácil do que culpar o intruso por tudo o que não vai bem”, disse Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de S. Paulo e autora de três livros, em um ensaio produzido para a abertura da sétima edição do Litercultura, que aconteceu na noite de segunda-feira (12), na capela Santa Maria, em Curitiba.

O Litercultura é um festival anual que acontece em Curitiba desde 2013, e tem como objetivo fomentar um debate sobre comunicação, a partir da leitura e escrita. Cada edição gira em torno de um tema. O de 2019 é “Fronteiras – Os territórios moventes da literatura e da nova geopolítica”, e Patrícia foi uma entre cinco convidados pela organização a produzir e falar um texto que dialoga com o tema.

Segundo Cesar Tridapali, um dos organizadores do Litercultura, a escolha do nome de Patrícia se deu porque “ela tem larga experiência como correspondente internacional, mas também tem um trabalho importante de investigação sobre fake news, que também impõem fronteiras e criam bolhas”, disse Tridapali. “Jornalismo e Literatura, embora em campos diferentes, fazem da fronteira um lugar muito rico de encontros”, completou.

Patrícia Campos Mello foi a primeira convidada do Litercultura 2019. Ela falou sobre bastidores de suas reportagens e sobre ataques na internet (Foto: Gilson Camargo/Litercultura)

O papo com Patrícia foi mediado pelo também jornalista e tradutor Christian Schwartz, que logo no início abordou os bastidores do livro Lua de mel em Kobane (Companhia das Letras, 2017), escrito por Patrícia. 

Em 2015, a jornalista viajou até Kobane, um cidade de Alepo, na Síria, para investigar a história de Aylan Curdi – menino sírio que morreu afogado em uma praia na Turquia quando tentava fugir, com a família, de sua cidade, que estava dominada pelo Estado Islâmico. Em Kobane, Patrícia conheceu o casal de sírios Barzan Iso, jornalista, e sua esposa Raushan Khalil. Os dois se casaram em Kobane, cidade na época sob comando do Estado Islâmico, fator que colocou em risco a vida do casal. Patrícia também estava ameaçada, tendo em vista que o Estado Islâmico tem um histórico de violência contra jornalistas. 

Com essa e outras coberturas de guerra, os leitores começaram associar o nome dela como sinônimo de coragem associação comum aos repórteres que se colocam em situações extremas. Mello, porém, não gosta desse estereótipo. “Eu não tenho coragem nenhuma, quem tem é quem mora lá [na Síria]. A gente faz o que tem que fazer e volta para o conforto da nossa casa. As pessoas de lá andam na rua e tomam bomba na cabeça”, disse.

Outro assunto abordado no bate-papo foram as milícias digitais e a criação de estrangeiro pré-fabricados ponto central em seu ensaio, que foi compilado em um livro junto com os outros textos dos autores convidados e comercializado no festival. 

Segundo a palestrante, as milícias digitais, geralmente associadas ao conservadorismo e a movimentos de extrema direita, são pessoas que se juntam nas redes sociais para massacrar uma pessoa ou um grupo porque acreditam que o outro é a razão de um problema maior. Esses ataques se constituem em humilhações e fake news.

No final do ano passado, a própria jornalista foi vítima das “milícias digitais”. Sofreu ataques e até ameaças em suas redes sociais, após a Folha de S. Paulo publicar uma reportagem, assinada pela própria Patrícia, que revelava que empresários brasileiros pagaram dinheiro a empresas estrangeira para disparar mensagens de apoio ao então candidato à presidência Jair Bolsonaro, via Whatsapp.

“Hoje em dia, com relação à imprensa, existe uma reação de culpar ou querer matar o mensageiro. Faz parte do processo de eleger um inimigo, e com as redes sociais isso se tornou mais fácil”, relata.

Por fim, a repórter da Folha falou sobre o futuro do jornalismo. Para ela, “o populismo e as fake news deram nova relevância para o jornalismo profissional, que é basicamente investigar pessoas. Não é opinião. Hoje em dia se confunde blog com jornalismo. Blog e opinião é uma coisa, jornalismo é outra”.

Serviço

Litercultura
Capela Santa Maria
R. Conselheiro Laurindo, 273 – Centro
Gratuito

13 de agosto
18h30 Mostra de curtas-metragens
20h Leonardo Padura (Cuba). Mediação de Mariana Sanches.

14 de agosto
18h30 Nosso amor de trincheira, nosso trânsito de fronteira. Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Pozzo leem poemas da poeta alemã Uljana Wolf.
20h Bernardo Carvalho (Brasil). Mediação de Manuel da Costa Pinto.

15 de agosto
18h30 Literatura de Refúgio – poemas de várias nacionalidades feitos e lidos por alunos estrangeiros da UFPR.
19h Ninoska Pottella – música da Venezuela
20h Juan Cárdenas (Colômbia). Mediação de Isabel Jasinski.

16 de agosto
18h30 André Abujamra. Show as 9 faces do Sr. Abu: uma viagem musical pelo mundo de um dos maiores artistas brasileiros.
20h Igiaba Scego (Itália). Mediação de Maria Célia Martirani.

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