Professora produz relato sobre retorno a Cuba após 20 anos

Mariléa Iantas visitou a Ilha em 1996 e retornou em maio deste ano para acompanhar a filha, Gabrielle Cordovi, no desenvolvimento de um documentário sobre o país caribenho. A socióloga decidiu produzir um relato, baseado em impressões e conversas durante a viagem. Confira:


“Depois de 20 anos, retornei à Cuba

Há vinte anos, ao pousar do avião em Cuba, a sensação era de que eu estava descendo em uma cidade destruída por uma bomba – o que não deixa de ser verdade, metaforicamente falando por conta do embargo. A cidade era inteira cinza, sem manutenção, tinta, cimento ou tijolos para reformas. Carros muito antigos, da década de 1950, eram os únicos no local.

Hoje a sensação mudou. As cores são mais vivas, o estacionamento do aeroporto tem muitos carros modernos e sofisticados, bem diferente da realidade do nosso guia. Com ele estava um Lada dos anos 1970, mesma idade do dono, Alberto, andando a 40 quilômetros por hora. Os carros antigos, hoje, são para turistas passearem e tirarem fotos. Ouvimos muitas buzinas para que ele saísse da frente, mas parecia que só o motorista não as escutava. A tranquilidade dele era invejável!

Alberto foi guerrilheiro junto com Fidel Castro na Sierra Maestra, e ao final da primeira semana conosco tornou-se meu papá e de Gabi, minha filha, seu abuelo.

Nossa estadia foi em um quarto bem cuidado, higienizado e com o selo de permissão do governo, pois agora os cidadãos podem alugar um quarto de sua casa. Para alugar, o quarto deve conter um banheiro, cama de casal, araras para as roupas, um pequeno bar, ar condicionado e privacidade para o turista.

A alimentação não era inclusa, mas a anfitriã fazia uma comida deliciosa. Alertava, porém, que o agrado não fosse noticiado em mídias sociais, pois, poderia causar a cassação da permissão para de alquilar (alugar o imóvel) se algo fosse descoberto pelo governo.

Há 20 anos, eu estava na escola do Partido Lázaro Penña, juntamente com professores sindicalistas da América Latina inteira, onde ficamos por 30 dias (na época eu gozava de licença-prêmio). Fui também a um curso para sindicalistas dirigentes, na época era do colegiado do Sismmac (Sindicato do Magistério Municipal de Curitiba), e para apresentar um trabalho sobre “Alfabetização Afetiva” no Congresso de Pedagogos da América.

Nossa viagem foi organizada por sindicalistas professores de Caruaru (PE), que deram oportunidade a todos os sindicatos do Brasil. Apesar de representar o Sismmac, fui com meu próprio dinheiro, pois nunca aceitei depender de sindicato. Sempre tive um padrão dentro da sala de aula, e nas minhas horas vagas atuava no sindicato. Portanto, não era liberada. Essa opção me concedia a “liberdade” de pensamento e votação dentro do sindicato e nas assembleias. Com um mês de horas-extras consegui pagar minha estadia no colegiado tranquilamente, por causa do baixo preço do dólar naquela época.

O problema foi a alimentação. Noite e dia era arroz, repolho e carne enlatada. Horrível. Deixavam a melhor comida para os turistas nos hotéis porque a crise era grande. Nenhum de nós reclamávamos, sabíamos do sofrimento do povo, então, nos reuníamos nas escadas da escola, onde separavam homens das mulheres para dividirmos bolachas, chocolates ou outras guloseimas. Hoje estou em Cuba pela minha filha, que que produz um documentário na Ilha como trabalho de conclusão de curso. Vim acompanhá-la: filmo os bastidores com o celular enquanto ela grava com a câmera da faculdade.

Professores de Ponta Grossa (PR) e Mariléa no Jardim Botânico de Cuba (Foto: Arquivo pessoal/ Mariléa Iantas)

Dia do trabalhador

O primeiro de maio foi “chocho” em relação há 20 anos. Sem a presença de Fidel, não houve discurso de ninguém, exceto por 15 minutos: um áudio de um discurso do El comandante, não se sabe de qual data. Da outra vez, estava em uma arquibancada preparada para os alunos da Lázaro Penña, com crachá, ao lado da Orquestra Sinfônica de Cortadores de Cana. Desta vez, acordei às 5h00, nosso guia nos pegou às 5h45, nos levou até oito quadras antes da Praça da Revolução, pois as ruas já estavam fechadas, para que os trabalhadores de vários setores pudessem chegar e se organizar para o desfile, que começou pontualmente às 7h00. Muitos jovens, idosos, mulheres, homens, crianças das escolas, todos em fila para o desfile. O primeiro de maio em Cuba é diferente.

No mundo capitalista, a data é marcada por passeatas de trabalhadores que lutam pelos direitos a serem conquistados e/ou consolidados. Apesar do embargo norte-americano, em Cuba grande parte desses direitos foram conquistados e, por isso, na Ilha o feriado é entendido como uma data de comemoração. Por mais difícil que tenha sido para a população, é uma vitória. Da outra vez eu estava na arquibancada, hoje na fila junto com outros trabalhadores. Em menos de uma hora, a fila em que estávamos, havia concluído o trajeto de desfile. Foi chocho…

A professora em ônibus de Cuba (Foto: Arquivo pessoal/ Mariléa Iantas)

Segurança pública e valores

Em 1996 caminhei por Cuba e não vi nenhum gato, cachorros sim. A fofoca era de que os felinos viravam churrasquinhos. Não sei. Desta vez, pelo menos a região onde ficamos tinham muitos gatos. Estavam seguros.

A segurança, aliás, é quase impecável em Cuba. Existem relatos de assaltos durante a noite, sem nenhum prejuízo físico à vítima, mas não há quaisquer relatos de estupros ou de violência contra a mulher. Conversei com um amigo do Alberto, diretor de estratégias pela segurança de carros de transporte de valores (carro-forte), que presta serviços a um banco espanhol. Possui câmaras de segurança em todos os carros-fortes, presta segurança também aos diretores desse banco. Dois deles, aliás, moram em Cuba. Um deles já perdeu um filho, sequestrado e morto na Espanha. Sente-se seguro na Ilha, mas mesmo assim montou essa empresa de segurança, a única do país. “A neurose é do diretor, mas o trabalho é nosso”, disse o amigo do Alberto, que completa: “Nunca houve assalto ou tentativa. Os banqueiros trouxeram suas neuroses para cá”.

Conversamos com um dos ex-seguranças pessoal de Fidel Castro. Não tenho permissão de colocar o nome. Mora em Tumba Cuatro, onde nos recebeu. Zona rural, distante duas horas de Havana no ritmo de 40 quilômetros por hora característico do carro de Alberto. Passamos dois dias conversando. Soubemos da vida do segurança que acompanhou o líder e guerrilheiro. Soube que no início dos anos 2000 muitos profissionais competentes e de importância vital para o país foram embora. “O embargo tirou muitos profissionais, que foram embora por causa da fome”, falou com lágrimas.

De todas as suas histórias, o segurança de Fidel guarda mágoas de quando o pai, de alta patente do exército, fugiu para Miami. Acusado por ajudá-lo na fuga, a decepção foi grande, pois seu pai sempre foi exemplo de combatente e o orientou a entrar para a segurança de Fidel. Foi afastado e teve sua casa vigiada por muitos anos, fato que o abalou psicologicamente.

À esquerda de Mariléa, Ramon Castro, irmão mais velho de Fidel Castro (Foto: Arquivo pessoal/ Mariléa Iantas)

Educação e religião

Ainda na conversa com o ex-segurança de Fidel surgiu o tema educação. Houve um tempo em que foi solicitado que jovens secundaristas lecionassem para os do fundamental II. Foi um desastre. Não pelo conteúdo, mas pela didática. Foi uma experiência encerrada em cinco anos.

Em Tumba Cuatro, a tranquilidade e a gentileza do interior reina.  Foi nessa tranquilidade que presenciei uma maestra (professora do ensino fundamental I) lecionando, um exemplo de educação ímpar. As crianças, de dez anos, muito participativas, compenetradas e interessadas na aula. Foi uma visita surpresa, nada combinado. Eram 25 alunos na sala de aula dessa professora, motivo de inveja.

Na primeira vez que vim não tive permissão de entrar na Catedral Metropolitana de Cuba, pois podiam entrar somente 20 pessoas por dia. Eu era a vigésima primeira da cola (fila). Grande decepção. Desta vez, estava totalmente aberta, e sem complicações conseguimos entrar, exceto pelo fato que a Gabi foi obrigada a colocar uma manta na cintura, pois, de acordo a senhora que estava cuidando da entrada, a bermuda que usava era curta.

Essa liberdade numérica para entrar na catedral é uma demonstração do poder que a Igreja Católica adquiriu na Ilha. Tudo começou nos anos 1990, período de grande penúria e fome em Cuba, quando o embargo econômico foi duramente aplicado pelo então presidente norte-americano George Bush. Na época várias congregações religiosas, tanto femininas como masculinas, entraram no país trazendo comida, roupas e produtos de higiene pessoal. Hoje, a igreja católica pode celebrar missas todos os dias, dar catequese, organizar grupos de oração e estudos. Ainda não foi liberado o curso de Teologia na Universidade de Havana, porém há um pedido do próprio Papa Francisco ao Partido Comunista.

Dois papas estiveram em Cuba: João Paulo II e Francisco. O discurso da igreja, enquanto arcebispado, é de extrema esquerda, contrária ao fechamento da ilha ao restante do mundo devido ao embargo, mas também é contrária a postura de um só partido. Tenho folhetos que são utilizados nas missas de domingos em Cuba, que possuem uma postura totalmente revolucionária, com críticas pertinentes ao Partido.

Conversei com um padre (também não terá o nome divulgado), de 50 anos, 20 deles dedicados ao sacerdócio. Para ele, a Igreja, enquanto instituição, está fazendo sua parte: profetizar, que significa anunciar o reino de Deus e denunciar os erros da sociedade. Ele, enquanto padre, considera que a população ainda está em um estágio muito inicial da fé. Devido ao fato de a maioria ser adepta e possuir uma cultura voltada ao Santeria, uma religião trazida por homens e mulheres que foram sequestrados na África e trazidos para o novo mundo como escravos. Uma ramificação trazida pelo povo Yoruba escravizado, que acredita no transe para falar com os antepassados e no sacrifício de animais, danças e tambores tocados de forma estridentes.

Devido esses fatores, o padre relata que quando é para fazer uma procissão com muitas imagens de santos católicos a igreja enche, mas para a missa são poucos os que comparecem. Uma catequista disse que as crianças vêm para as aulas se o horário for logo após as aulas, pois a igreja é em frente à escola.  Aos domingos, após a missa, é impossível. Não há costume dos pais em frequentar a missa, consequentemente as crianças também não vão. A avaliação do padre é de que, na verdade, isso é uma questão cultural. A população não teve como base a religião católica.

O partido Comunista discute atualmente a questão do casamento neutro, assim chamam casamento entre pessoas de mesmo sexo. Na nova Constituição, concluída em 2018, não foi permitido. De acordo com relatos, os políticos mais velhos do partido, coordenados por Raul Castro, foram contrários. Houve um referendo popular, e a Igreja Católica teve atuação forte em influenciar a população para o não. Para a comunidade LGBTI foi um retrocesso. Não há nenhuma violência contra essa comunidade, ninguém se importa se veem um casal homossexual juntos, porém, a lei não assegura o casamento de uma relação estável, nem permissão para adoção ou herança.

Mariléa, em sua primeira viagem à Cuba, e o jogador de vôlei Joel Despaigne (Foto: Arquivo pessoal/ Mariléa Iantas)

A cidade e os cubanos

Algumas impressões que guardo é que, em Havana, as residências, com exceção de algumas casas e bairros, integram uma grande favela. Estou sendo etnocentrista, me perdoe, mas é assim que me sinto. Respeito a situação da população e procuro entender as condições em que vivem os cubanos. Há 20 anos não havia esgotos a céu aberto; hoje é preciso desviar das águas sujas saindo das casas. É muito triste ver isso. O incrível é que não possuem epidemias resultantes desse fato. Nenhuma epidemia.

A população tem problemas na dentição, inclusive médicos. É a falta de cálcio na alimentação dos cubanos. Não deixam de ir ao dentista, mas não há materiais para a confecção de outro dente. Aqui no Brasil a população pobre não vai ao dentista por falta de dinheiro, e lá é por causa da falta de materiais.

Dentro de Cuba, hoje, estão Espanha, Canadá, França e Itália. Além de bancos, também estão construindo hotéis, alguns deles em pleno funcionamento. A regra é que o quadro de funcionários dessas empresas empreguem, no mínimo, 50% de funcionários cubanos, desde a limpeza até a direção executiva.

Os jovens, em geral, parecem não se interessar por política. Querem ter liberdade para viajar, sair, voltar, enfim, ser jovem.  Na maioria das famílias cubanas existem pessoas que migraram para outros países para trabalhar e enviar dinheiro aos seus familiares.

A internet não é liberada para todos, apenas para médicos, artistas, líderes do partido há conexão discada. Não há permissão para wi-fi em qualquer casa. As pessoas precisam comprar dados móveis cada vez que necessitam usar. Há em Havana uma praça onde o wi-fi é liberado, por alguns momentos do dia – porém, a conexão é muito lenta.

O embargo norte-americano criou uma população extremamente corajosa, destemida, que resolve seus problemas de formas inusitadas, mas também trouxe à tona situações tristes, como os que deixam o país e a família para tentar uma vida melhor.

Professores sindicalistas brasileiros no Clube Giraldia, em maio de 1996 (Foto: Arquivo pessoal/ Mariléa Iantas)

Depois de 20 anos?

O que posso dizer de minha experiência? O mundo deturpa quando fala que as pessoas saem de Cuba por causa da ditadura. Na minha opinião é por causa do embargo norte-americano, que não se importa com os sonhos e com a vida de um povo. “Se não houvesse o embargo, seríamos o exemplo de nação para o mundo. É por isso que os Estados Unidos não nos deixa ser livres”, disse meu papá Alberto.

Dizem que Cuba é uma ditadura. É verdade. Só que é a ditadura do proletariado. O que é isso? É quando a classe trabalhadora detém o poder político da nação, decide sobre tudo o que envolve suas necessidades de cidadão, e destitui a classe burguesa de seu trono de poder. Esse termo foi criado por Joseph Weydemeyer, membro da Liga dos Comunistas, no século XIX e, também utilizado por Marx e Engels.

Cuba é exemplo para a classe trabalhadora. Por isso que a burguesia deturpa e coloca medo nas pessoas sobre Cuba, porque poderia ter sido um império da classe trabalhadora. Mesmo não tendo atingido o resultado, realmente tudo o que envolve Cuba está na história da humanidade.

O que penso de Cuba para os próximos 20 anos? Consegue se manter com a grande quantidade de turistas que vêm para a ilha, porém, ideologicamente, a juventude não quer persistir com tal ideologia. Penso que, dentro de uns 20 anos, já não restará nada pelo que uma geração inteira lutou. Pessimista? Não sei. Realista, talvez.

As grandes potências têm furado o embargo e negociado com Cuba, não porque são caridosas, mas porque é um local de mão-de-obra barata e com uma natureza exuberante. Pensam nos turistas que trazem dólares. Por isso, talvez a ilha continue “Comunista” para que atraia turistas, intelectuais”.

Mariléa no Centro Histórico de Havana, capital de Cuba, em 2019 (Foto: Gabrielle Cordovi)

 

A opiniões contidas no relato são de inteira responsabilidade da autora e não refletem necessariamente a opinião dos editores.

Deixe uma resposta