Depois de 50 anos, Stonewall ainda vive nas veias do Dia do Orgulho LGBTI

A parada LGBTI de SP, que aconteceu no último domingo (23), é um dos principais movimentos da luta contra a discriminação sobre a comunidade LGBTI no Brasil. Em Curitiba, alunos produziram um livro sobre cinco personagens Trans, e como vivem em meio ao preconceito e o medo

O mês de junho é marcado por comemorações sobre o Orgulho LGBTI, celebrado no dia 28 no mundo todo. O dia foi escolhido em memória à Rebelião de Stonewall, que foi uma série de manifestações violentas ocorridas em 1969, no bar Stonewall Inn., contra a violência e invasão ao local praticados pela polícia de Nova Iorque.

Em reflexo disso, o mês é voltado para lembrar e fortalecer a luta contra o preconceito e violência contra a comunidade LGBTI. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, em 2016  1876 denúncias e 2907 violações foram recebidas pelo Disque 100.

Em São Paulo, no último domingo (23) ocorreu a 23ª Parada LGBT+, com comemoração especial ao aniversário da Rebelião de Stonewall, que hoje (28) completa 50 anos. A organização do evento estipulou que cerca de 3 milhões de pessoas participaram do evento.

Em prol desse movimento, os egressos Kamilla Defert e Markus Kalebe, ambos com 22 anos, escreveram o livro-reportagem Corpos Perfeitos: A Identidade Trans em Curitiba. O material, resultado do TCC da dupla, mostra a vida de cinco personagens transexuais que residem em Curitiba: Bernardo, Matheo, Megg, Rafaelly e Djessy. Do nascimento às transformações ao longo da vida, o livro deixa explícitas as dificuldades de auto-aceitação, a revelação à família e à sociedade. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, somente em 2015, foram recebidas 103 denúncias no Disque 100 que relatavam violência contra Transexuais.

Capa e contracapa de Corpos Perfeitos: A Identidade Trans em Curitiba (Foto: Rhanna Sarot/Rede Teia)

“Bom, primeiramente eu e o Markus sempre trabalhamos com temas ligados ao público LGBT, sempre fomos engajados. Antes de realmente realizar o TCC sobre transexuais, já tínhamos a vontade de escrever um livro-reportagem”, explica Kamilla ao recordas do tema escolhido. Os dois alunos, no final do terceiro ano, produziram uma série de pesquisas que apontavam a grande taxa de violência que existe contra a população trans, além da forma com que o jornalismo abordava o tema. “O que mais assustava naquilo era o fato de algumas das vítimas serem mortas pelo simples fato de serem transexuais e como o jornalismo anunciava a violência que sofriam”, complementa Markus.

Uma das principais dificuldades encontradas para a produção do livro foi a procura por fontes e especialistas do tema, ainda mais brasileiros. Outro ponto de confronto enfrentado na produção do conteúdo foi a forma como precisou ser abordado. “A gente tinha aquela dificuldade de fazer perguntas difíceis a eles de uma forma que não os deixasse com medo ou ofendidos”, disse Kamilla.

Confira um trecho do livro, autorizado pelos autores, do capítulo Meu nome é Megg.

“A cianortense Megg Rayara não nasceu Megg. Registrada com um nome masculino depois que ingressou na escola, não sabia das diferenças entre meninos e meninas. Para ela, desde pequena, assim como no seu interior, o corpo representava uma menina.

—Antes de ir para a escola, eu não sab a muito a distinção entre o que era menino e o que era menina, tinha  certeza  de que  era menina.  E para mim, ser menina tinha que ter cabelo comprido, eu não sabia da distinção genital e biológica —, relata.

A mãe a impossibilitava de usar cabelos compridos, a forma que encontrou para resolver o seu desejo, era usar uma toalha de banho na cabeça. Mesmo pequena, não se sentia apartada das crianças por conta do seu cabelo de toalha, brincava na rua com todo mundo. Relembra que ao ir ao armazém do bairro, ia sempre com a sua toalha de banho na cabeça, voando com o vento, como se fossem cabelos de verdade.”

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