“Não é possível vencer a desigualdade acumulada”, diz especialista

 

Às vésperas do Dia Mundial da Educação, pesquisador defende políticas afirmativas no ensino superior, mas reitera que quadro social e racial de desigualdade é endêmico no país. Na UFPR, conclusão de graduação entre cotistas negros e pardos cresceu de 2,2%, em 2000, para 9,3%, em 2017.

No próximo sábado (28), comemora-se o Dia Mundial da Educação, data que busca conscientizar a população sobre a importância do conhecimento. A Rede Teia promove nesta semana uma série de reportagens sobre a temática da educação. Entre os assuntos estão as políticas afirmativas, popularmente chamadas de cotas.

A Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2005, aderiu à política de inclusão para o ensino superior. Em 2012, foi sancionada a Lei nº 12.711, que visa a obrigatoriedade da reserva de 50% das vagas nas universidades federais para cotas raciais, além das sociais, destinadas a estudantes que realizaram o Ensino Médio em escola pública ou na iniciativa privada (desde que com bolsa integral). Para esses estudantes há uma pequena divisão percentual nas vagas disponíveis entre os que recebem mensalmente renda até 1,5 salário mínimo e os que recebem acima disso.

Sobre a importância dessas políticas afirmativas, a estudante de Ciências Sociais da UFPR Pamela Cristina Laguna, de 21 anos, relata que “as cotas são importantes para a inclusão de pessoas negras, pobres e marginalizadas no ambiente acadêmico, que é muito elitizado e distante da realidade das pessoas”.

Beneficiário das cotas sociais, Pedro Hreczkiu, de 19 anos, estudante do curso Engenharia Mecânica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), entende que provavelmente a situação particular dele não seria afetada sem o acesso às políticas afirmativas. Ele afirma ter tido acesso a um ensino de qualidade. No entanto, avalia que para aqueles que não tiveram a mesma oportunidade que ele, a inclusão via políticas afirmativas é importante para reduzir as desigualdades do país.

O professor e pesquisador Paulo Vinicius Baptista avalia que percentual de negros e pobres nas universidades cresceu, mas é insuficiente para resolver problemas de desigualdade (Foto: Ana Zampier/Rede Teia).

Segundo o doutor em Psicologia, professor na UFPR e pesquisador na área de políticas afirmativas, Paulo Vinicius Baptista da Silva, pesquisas mostraram que entre as décadas de 1960 e 1990, quando a universidade cresceu, ela aumentou também a desigualdade entre negros e brancos. Em 1960, apenas 0,4% da população negra acima de 25 anos tinha curso superior completo, enquanto a porcentagem para a população branca era de 1,8%.

Em 2000, houve um avanço em ambos: 1,8% para negros, 1,8% para pardos e para os brancos 11,6%. Baptista da Silva ainda revela que “para se resolver um problema de uma desigualdade tão grande como essa, não adianta investir, por exemplo, apenas na educação básica, ainda é necessário algum tipo de ação específica no ensino superior para aumentar a presença negra”.


Desempenho

Apesar dos questionamentos iniciais, estudantes cotistas negros e de escola pública têm atuação igual ou superior aos estudantes de concorrência geral. O desempenho dos cotistas é crescente ao longo do curso: no primeiro ano há uma certa dificuldade de adaptação, mas depois melhoram ao se acostumar com o sistema da universidade.


Desistências

No início, em 2004 e 2005, as pesquisas apontaram que, quando uma pessoa cotista entra na universidade, sua família se mobiliza para que ela permaneça. Isso acontece porque é significativo para a família ter um membro com curso superior completo, já que muitas vezes são os primeiros.


Ana Zampier
, Isabela Sebrão e Isabela Miranda são estudantes do 1° período do curso de Jornalismo da Universidade Positivo.

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