Qual a cor do dezembro?

Fernando Fogaça

Outubro Rosa e Novembro Azul. Com certeza você já deve ter ouvido falar sobre essas campanhas, principalmente a primeira, que todos os anos ganha forte divulgação da mídia e é espalhada por todo o país, com luzes rosas em grandes e importantes pontos turísticos das localidades brasileiras.

Com a moda dos “meses coloridos”, dezembro é mais conhecido quando pintado de vermelho, em referência à campanha contra a AIDS. O já conhecido Dezembro Vermelho tem como objetivo conscientizar a população sobre os sintomas, formas de contágio e prevenção do vírus, além de combater o preconceito que ainda existe.

Entretanto, outra doença pede espaço no último mês do ano, porém, não sendo tão divulgada assim. O Dezembro Laranja é a campanha de prevenção ao câncer de pele, o tipo de câncer mais diagnosticado em nosso país tropical.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), 600 mil pessoas devem confirmar o diagnóstico de câncer no país, sendo aproximadamente 180 mil delas diagnosticadas com câncer de pele. Esse dado corresponde a 33% de todos os diagnósticos desse tipo de doença no Brasil.

Com o slogan “se exponha mas não se queime”, a campanha desse ano tem “a intenção de estimular a população na prevenção e no diagnóstico ao câncer da pele”. Criado em 2014 pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o movimento, além de realizar iniciativas de conscientização, convida a população a compartilhar nas redes sociais uma foto vestindo uma peça de roupa na cor laranja, publicando junto a hashtag #dezembrolaranja.

Bianca Ogliari, jornalista de 22 anos, convive com o câncer de pele tipo melanoma já no estágio III, no qual o tumor já atingiu os linfonodos. Bianca foi diagnosticada em 2015, aos 19 anos de idade. Sem filtros e encrenqueira, a jovem não costuma ficar quieta quando o assunto é sua doença; o que mais a desagrada é o preconceito e as informações equivocadas, disseminadas tanto pela mídia quanto por leigos no assunto.

Em seu período na faculdade de jornalismo, passou por episódios lamentáveis de preconceito por parte de colegas de turma, sendo necessário até contratar advogados para se defender legalmente. Apesar de ter sofrido muito com os comentários, segue firme e forte, usando sua profissão para informar cada vez mais as pessoas sobre a doença e, principalmente, sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

Imagem da campanha de combate ao câncer de pele promovida pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Imagem da campanha de combate ao câncer de pele promovida pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.

 

  1. Quando e como você descobriu que tinha melanoma?

Descobri no dia 27 de janeiro de 2015, pontualmente às 15h. A notícia chegou via telefonema da minha dermatologia, mais tarde, fui ao seu consultório para ouvi-la definitivamente. Essas coisas a gente não esquece, né? Foi em 2014 que a pinta no meu braço direito começou a alterar sua cor, textura e formato. Como a pinta nasceu comigo, foi difícil perceber a mudança em algo que sempre me acompanhou, então demorei para notar. Quem notou foi meu primo, que um dia comentou que minha pinta estava estranha, muito grande. Só depois de uns dias comecei a me incomodar esteticamente com ela, pois várias pessoas começaram a me perguntar sobre a “pinta grande”, então decidi marcar uma consulta com minha dermatologista. Ela examinou e disse ser superficial, mas que tiraria para me tranquilizar, porém, quando o exame da patologia chegou, não era bem isso. A pinta estava com 10 campos de grande aumento metastático. Era câncer, o mais agressivo de pele, o melanoma nodular Clark III. Ele já havia atingido meus linfonodos do lado direito e minhas glândulas mamárias do seio direito.  

 

  1. Como você se sentiu à época e como se sente hoje, quase 4 anos após o diagnóstico?

Não tive muito tempo para parar e pensar sobre o assunto, foi tudo muito rápido. Eu me lembro pouco de como me senti naqueles dias, além de passar muita raiva. Passei a odiar muita gente. Lembro de receber visitas na minha cidade [Pato Branco-PR] de pessoas que eu nunca tinha visto na vida, amigas desnecessárias da minha mãe que me visitaram no hospital e só me fizeram passar raiva mesmo. Via o verão e as férias passando pelas minhas mãos e minha rotina escorrendo do meu controle para solucionar um problema que, tempos depois, descobri que precisaria conviver para o resto da vida. Recordo-me de chorar muito, mas de raiva, não conseguia sentir tristeza pelo câncer, no começo. Aí o que me ajudava era escrever, escrevi muito diário ruim nos primeiros dias que fiquei no hospital, mas eu não tinha nada para fazer, além de ler. Raiva foi o primeiro sentimento, depois veio a vontade de fingir que aquilo não estava acontecendo: decidi manter minha rotina normal e tratar essa merda, mas sem que ela me afetasse. Hoje eu sinto menos raiva e agora, sim, estou passando pela fase de tristeza, em ver que quatro anos se passaram e não houve nenhum sinal de melhora.

 

  1. A atual cobertura jornalística sobre o câncer de pele é satisfatória?

É uma bosta. Eu mesma não sabia o que era a doença até receber o diagnóstico, ou seja, qual é o real problema? Falta de informação. Mas não gera impacto, né? Até porque o jornalismo ainda é muito atrasado na questão de abordar esse tema de maneira atrativa. O mais irônico é que, em um país tão racista como o Brasil, no verão todo mundo quer saber de praia e pele morena, sem sequer saber que a pele é um órgão e que em 20 minutos o sol é capaz de causar grandes estragos, invisíveis aos olhos humanos. O jornalismo começa falhando em abordar o tema utilizando pacientes do câncer de pele de modo geral, mas não pensa em informar, ilustrar como fazer autoexame, reforçar a consulta dermatológica anual, proteção diária com o filtro solar e o tempo necessário para adquirir o suficiente de vitamina D (5 minutos em horários permitidos). O jornalismo tem muito o que aprender para poder falar de câncer, mas ele precisa aprender rápido, junto com o mercado publicitário (que vai de mal a pior na hora de fazer campanhas), antes que a desinformação mate mais pessoas.

 

  1. Campanhas como Outubro Rosa e Novembro Azul são amplamente divulgadas, tendo forte engajamento dos órgãos públicos de saúde e até mesmo da população em geral. Por que o mesmo não ocorre com o Dezembro Laranja, mesmo sendo o câncer de pele o mais frequente tipo de câncer no Brasil?

Essa distribuição de campanhas sobre diversos cânceres se dá pela epidemiologia do câncer no Brasil, envolvendo um aumento entre os tipos de câncer normalmente associados ao alto status socioeconômico – câncer de mama, próstata, colón e reto – e, simultaneamente, à presença de taxas de incidência elevadas de tumores geralmente associados à pobreza – câncer de colo de útero, pênis, estômago, cavidade oral e de pele. As campanhas em relação ao câncer de pele não nomeiam o tipo e sim a ramificação geral: câncer de pele, o que leva à falta de informação do quão grave a doença pode ser. Essa desinformação é consequência de um conhecimento superficial de que o câncer de pele é resultado de queimaduras solares leves, que necessitam de um tratamento simples e que pode atingir a cura facilmente. Isso, em alguns casos, está correto, porém, é uma informação precipitada e generalizada, sendo que há casos gravíssimos, como o câncer de pele tipo melanoma. Além do estereótipo em relação à estética, algumas pessoas associam o câncer de pele a uma doença suja e nojenta, por ser o único câncer que se apresenta em forma de lesões, pintas deformadas ou feridas, o que leva a pensar que houve relaxamento do paciente, desconsiderando, por exemplo, causas genéticas. Por conta desses preconceitos, o mercado publicitário acha não vale a pena fazer campanhas que gerem conhecimento e consciência sobre este tipo de câncer de pele. Além do que, o melanoma é o tipo de câncer com tratamento mais caro no Brasil, isso já explica tudo, né? Quanto mais pessoas diagnosticadas, mais dinheiro para o mercado oncológico e farmacêutico.

 

  1. Você sofreu muito com o preconceito de colegas da faculdade, alguns que não entendiam a doença e disseminavam informações erradas e também outros que apenas faziam boatos e comentários maldosos. Como foi conviver com isso?

Bom, quando conclui o curso, minha mãe insistiu para que eu fizesse terapia. Acho que isso já explica bem o que passei lá. Convivo com os fantasmas da faculdade tomando medicamentos leves e homeopáticos para a depressão. Eu costumo dizer que aquelas pessoas foram piores do que o próprio câncer. Culpo a universidade por falta de atitude, mas a grande verdade é que as pessoas são escrotas assim mesmo, professores ou não, autoridades ou não, alunos ou não, jornalistas ou não. Pensei inúmeras vezes em não só sair da faculdade como sair daqui, do mundo. Só vivenciando o câncer para entendê-lo, só quem vive isso de perto sabe a dor de carregar isso para a vida. É por conta dessas pessoas que a faculdade foi o pior período da minha vida.   

 

  1. No processo de pesquisa para a escrita do seu livro, “Querido Melanoma”, você se surpreendeu com alguma informação que descobriu?

Me surpreendi com inúmeras coisas, mas o que mais me abalou foi a máfia que existe por trás do mercado farmacêutico-oncológico contra os pacientes com melanoma. É uma máquina de dinheiro que não está muito interessada em curar pacientes de fato e, sim, em receber mais pacientes com esse diagnóstico. 95% dos gastos com o melanoma são decorrentes de tratamentos em estágios mais avançados da doença, que demandam medicamentos mais caros. O custo do tratamento de um paciente com melanoma em estágio III e IV poderia cobrir o de vários tratamentos em estágio iniciais, por exemplo. Esses valores poderiam ser gastos com mais campanhas de prevenção e diagnóstico precoce, gerando para o Ministério da Saúde economia para o sistema público de saúde (SUS) e para convênios particulares. Me senti um objeto de lucro para a oncologia, e não um objetivo de cura.  

 

  1. Qual a importância que você enxerga no seu livro?

Quando produzi meu TCC, pesquisei o mercado editorial para saber se esse tema já havia sido explorado: lógico que não. Ele foi o primeiro livro-reportagem a informar de maneira simples o que é a doença, acho que alcancei meu objetivo, que era impactar os leitores: todos me retornaram dizendo que foram ao dermatologista ou olharam para sua pele de maneira diferente. Acredito na relevância dele e trabalho para a publicação, mas acho que ele deve ser um trabalho multiplataforma, e estou trabalhando para alcançar isso. O livro virou uma causa de vida para mim, não pretendo morrer antes de soltar informações para o mundo sobre o melanoma. Depois, o cara lá de cima pode fazer o que quiser comigo (risos).

 

  1. Você pretende levar o tema adiante, com projetos associados ou até mesmo novos livros?

Como respondi acima, acredito que o livro me abriu portas para construir outros projetos, e é nisso que trabalho hoje, na construção de uma causa. Não gosto da ideia de ONGs ou institutos, acho esses órgãos sem propósito e pouco eficazes no quesito “fazer acontecer”. Eu não quero chegar na porta das casas das pessoas, tipo, bater na porta e falar “já viu suas pintas hoje?” Quero chegar no jovem até o senhor que trabalha todo dia no sertão, na terra, sem proteção alguma contra o sol. Quero que as pessoas aprendam a se autoexaminar, quero gerar consciência para o autoexame de pele, assim como a publicidade gerou para o autoexame de mama. Existem outros projetos ligados ao livro, todos com o mesmo propósito: informar. Espero que todos eles decolem e, que assim, pessoas não passem pelo o que eu e milhares de outras pessoas passamos todos os anos.

 

  1. O que as pessoas não sabem sobre o câncer de pele que você acha que deveriam saber?

Que ele não é simples. O câncer de pele não tem um único tipo, tem milhares, e que apesar de ter esse conceito de um tumor fácil de resolver, nem sempre é. A pele é o maior órgão do nosso corpo e precisa de tanta atenção quanto os demais. Ou as pessoas começam a criar consciência ou essa doença vai se alastrar cada vez mais, matando milhares pelo mundo.

 

  1. Qual o conselho ou informação que você gostaria de deixar sobre o câncer de pele e sua prevenção e tratamento?

Aprenda a fazer o autoexame: olhe sua pele, manchas, pintas; veja o que há de diferente, o que mudou, se há sintomas. A pele fala e a gente precisa aprender a ouvi-la. Ah, e claro, use filtro solar TODOS OS DIAS e vá ao dermatologista pelo menos uma vez ao ano. O sol não está presente apenas no verão, as luzes não estão. Elas vivem conosco e machucam nossa pele, então, cuidem-se!

O dezembro pode ser vermelho e pode ser laranja, o que realmente importa é que o câncer de pele seja mais divulgado pela mídia e que a população tenha mais acesso às informações sobre esse tipo de câncer que pode ser evitado com atitudes simples, como usar protetor solar e consultar regularmente um médico dermatologista.

Deixe uma resposta