O lado nebuloso da notícia

Ana Beatriz da Luz

O livro “O Lado Nebuloso da Notícia” foi o produto do meu trabalho de conclusão de curso. Meu objetivo com a escrita da obra foi esmiuçar a abordagem do suicídio na imprensa, traçando um viés histórico sobre a publicação do suicídio na mídia e mostrando como o jornalismo pode ser um meio de prevenção.

Para isso, realizei pesquisas bibliográficas e entrevistas com jornalistas que apresentaram visões diferentes sobre a cobertura do suicídio, cujo o conteúdo é narrado em uma linguagem séria e leve, com o intuito de esclarecer um assunto que na maioria das vezes não é noticiado pelos meios de comunicação por conta da incerteza que os veículos têm se ele trará impactos positivos ou negativos na sociedade.

 

Segunda parte do capítulo 7 do livro “O Lado Nebuloso da Notícia”

Suicídios como o do ator Robin Williams, de 63 anos, se tornaram pautas. A celebridade se matou em agosto de 2014. Williams ficou conhecido pela comédia e a todo momento estava com um sorriso no rosto em público. Entretanto, o ator sofria de forte depressão quando foi diagnosticado com Mal de Parkinson.

A divulgação desse caso aconteceu porque ele era uma celebridade, um ator muito popular que fez filmes de enorme bilheteria e que passava para a maior parte das pessoas uma imagem de felicidade e bem-estar, mas que, em contrapartida, sofria de depressão e ansiedade. Essa contradição com a imagem dele acabou se tornando a pauta. Muitos programas de televisão dos mais corriqueiros aos mais aprofundados discutiram essa questão do suicídio relacionado a quadros depressivos.

Há também o caso de Heath Ledger, ator que interpretou o Coringa, em Batman: O cavalheiro das trevas. Ledger tinha 28 anos quando foi encontrado sem vida em Nova York. A maioria dos jornais noticiou que ele havia sido vítima de uma overdose acidental. O papel como Coringa rendeu ao ator um Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante.

A personalidade faleceu em 22 de janeiro de 2008, e o laudo de sua morte, de acordo com o IML de Nova York, foi intoxicação aguda pelo efeito combinado de pelo menos seis medicamentos; nenhum jornal usou a palavra suicídio.

Philip Seymour Hoffman, ator americano que morreu em 2014, também foi vítima de uma intoxicação causada pela mistura de drogas, incluindo heroína, cocaína e anfetaminas. Seymour Hoffman, ganhador de um Oscar pela sua interpretação de Truman Capote, foi encontrado morto em sua casa em Manhattan com uma agulha ainda no braço. Tinha 46 anos.

De acordo com o jornal New York Post, a polícia informou que a causa da morte foi overdose de drogas. Ele foi encontrado caído no chão do banheiro de seu apartamento em Manhattan. Grande parte dos jornais noticiou que a morte de Hoffman parece ter sido proposital, mas não foi usada a expressão suicídio.

Um caso brasileiro de suicídio de grandes personalidades é o da atriz Ariclê Perez. Uma atriz importante nos anos 80, ela morreu em 2006, fez muitas novelas e foi muito respeitada no teatro nacional. Ariclê morreu depois de cair do décimo andar do apartamento onde morava no bairro de classe média alta de Higienópolis, na região central de São Paulo.

A polícia paulista investigou a causa da morte. O corpo de Ariclê foi encontrado às 18h40m em frente à porta da garagem do edifício Diana, no número 270 da Rua Maranhão. Passaram-se alguns dias para que fosse cogitada a possibilidade de efetivamente tratar o caso como suicídio.

A notícia publicada foi “Ela caiu da janela”, sem detalhes de que poderia ter sido um caso de suicídio. Não se discutia muito sobre o assunto. Provavelmente por conta da regra do jornalismo de não abordar o suicídio como notícia para não dar tratamento sensacionalista. Percebeu-se que os jornais optaram por manter a discrição.

Esses foram alguns casos de suicídio que o jornalista Paulo Camargo noticiou ao longo de sua carreira como jornalista da área de cultura. Ele já trabalhou no Caderno G, um caderno de cultura da Gazeta do Povo. Atualmente, com mais dois sócios criou A Escotilha, um site de jornalismo cultural opinativo.

O jornalista afirma que, ao longo dos anos, transtornos de ordem psicoemocionais e neurológicos, como a depressão, ansiedade e estresse se tornaram muito mais presentes e recorrentes nos meios de comunicação. E o suicídio, que na maioria das vezes é a consequência de um quadro de depressão ou de um transtorno mental, tornou-se de certa maneira menos tabu. “Até porque hoje existe um número muito grande de casos de suicídios acontecendo na população civil. Já foi assunto de discussão dentro da Universidade, o curso de psicologia está discutindo isso com a gente, muitas tentativas de suicídio, e uma coisa que não é de uma e de outra instituição. Eu acho que existe na minha concepção uma naturalização maior do assunto. Não no sentido de espetacularizar, enquanto notícia, mas de tratar como é”.

O suicídio é tema de discussão dentro das universidades. E diante desse cenário preocupante na saúde mental dos alunos, algumas universidades têm desenvolvido programas de apoio psicológico e psiquiátrico.

Quando noticiou esses casos de pessoas famosas que se mataram, Paulo diz que não se recorda de algum veículo ter dado alguma recomendação expressa. “Eu venho de uma cultura em que as coisas eram mais tácitas, no sentido de que não precisa ninguém mandar, nós sabíamos que precisávamos ser cautelosos e cuidadosos nesses casos”. Entretanto, em determinadas situações, o jornalista não pode omitir a causa da morte, mas também não pode especular. “Sempre tive a liberdade de ter bom senso. Não me lembro de alguém me dizer para não noticiar algum caso. Sobretudo porque nos últimos anos eu trabalhei no jornalismo de cultura e nessa área as pessoas são conhecidas. É uma área em que é relevante o jornalista divulgar que alguém tirou a própria vida”.

Em contrapartida, o jornalista relatou dois casos que o marcaram bastante. O primeiro de um rapaz chamado João da Silva que trabalhou em sua equipe no Caderno G, formado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), que foi estagiário e depois jornalista contratado. João se suicidou aos 23 anos de idade. E a Gazeta do Povo escreveu um obituário, no qual em momento algum foi dito que a causa da morte dele havia sido suicídio.

O outro caso é do Gustavo Santos, que também foi estagiário da Gazeta do Povo, trabalhou no Estadão e em revistas como a Veja. Formou-se na Unibrasil, e há não muito tempo caiu da janela. O caso foi noticiado porque ele era um jovem jornalista promissor conhecido, mas em momento algum a causa da morte foi dada como suicídio. Paulo soube a verdadeira causa da morte por meio de amigos que tinham uma proximidade maior com a família. Esses dois jornalistas não eram celebridades, eram pessoas semipúblicas, e a atitude dos veículos de comunicação demostra que existe esse pudor.

No caso do João, a morte foi por ingestão de remédios. Já Gustavo se jogou da janela. Foi então que Paulo Camargo percebeu o quão delicado é o tema quando se relaciona a alguém que está mais próximo. “Quando se trata de alguém com quem se tem algum tipo de vínculo, por mais que tenha relevância jornalística, é alguém que está de alguma forma inserido no seu cotidiano. E eu senti realmente que o veículo tinha uma relação de cautela e pudor que nesses casos não foi dado”. A reflexão que ele faz é que quanto mais próximo, mais difícil de lidar.

De acordo com o jornalista, o suicídio não é notícia, a morte de alguém conhecido é. Como a pessoa morreu vai depender da relevância e da notoriedade dessa pessoa, porque existe um limite do quanto se pode noticiar. Recentemente um jovem escritor carioca se jogou pela janela e também ficou essa lacuna. Ele caiu e foi encontrado morto na calçada em frente ao prédio. As redes sociais, os amigos, a editora e a comunidade de escritores começaram a discutir o caso lamentando, falando da tristeza, da depressão e como tudo isso acabou se tornando peças de um quebra-cabeça. Existiu uma preservação, porque era alguém conhecido, mas não muito conhecido. Para bom entendedor meia palavra basta, presume-se que foi suicídio, mas não se tocou no assunto.

Paulo recorda-se que cobriu o caso de uma garota, em Curitiba, que se matou por conta da morte do Ayrton Senna. E essa morte virou notícia. Ele foi na casa da menina, no quarto, viu o álbum de fotos e os pôsteres. Ou seja, existiu um evento infinitamente maior, que foi a morte do Ayrton Senna, e uma consequência completamente inesperada, que para os editores tinha relevância e deveria ser noticiado. Na época, Paulo era um jovem repórter e foi fazer a matéria. Dirigiu-se até a casa da família, entrou na casa. Ele afirma que se fosse uma menina de classe média alta teria complicações no acesso, mas como era uma adolescente de classe baixa tornou-se mais acessível e menos protegido. Em um caso como esse, percebe-se que houve um elemento de sensacionalismo, porque em uma época pré-internet a divulgação desse caso fomentou a audiência desencadeada pela morte do piloto. Não sei se é relevante noticiar que uma adolescente se matou por causa do ídolo. “Não sei se isso vai mudar a vida de alguém. Não sei se isso tem interesse público, acho que tem mais interesse do público. Mas porque estava associado a um caso maior e de grande apelo popular, acho que ali pesou o sensacionalismo”.

Para Paulo, a forma correta de noticiar o suicídio precisa ser sóbria, sem detalhes desnecessários. E se esse caso de suicídio estiver associado a um quadro de depressão ou a um transtorno mental, é importante que isso seja frisado, porque se trata de uma emergência psiquiátrica. É relevante mostrar centrais de auxílio à vida e de atendimento para entender que as pessoas não se matam porque estão tristes. “Essa história de que perdeu o namorado, o emprego ou a empresa faliu, isso quase sempre é equivocado. Esses fatores da vida desencadeiam um quadro depressivo que leva ao suicídio. Acho que ninguém se mata por um acontecimento, tem pessoas que enfrentam as piores experiências do mundo e estão vivas. E não é porque elas são mais fortes, é porque elas não têm um transtorno, elas não têm algo que as torna mais frágeis. Quando é alguém muito conhecido, que significa algo para muitas pessoas, pode ser um atleta, um artista, um político, o jornalista precisa de alguma forma discutir, porque o suicídio é algo que está acontecendo. É uma realidade. Existe uma onda de suicídios entre jovens e adolescentes. Muitas vezes isso pode ser prevenido, entretanto eu entendo o porquê não fazer estardalhaço. Porque o suicídio em si não é notícia, morrer não é uma notícia, mas quando se trata de alguma personalidade importante precisa vir acompanhado de algo que auxilie as pessoas a compreenderem os motivos por trás de alguém que comete o ato para que não se façam julgamentos precipitados e levianos”.

 

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