O cheiro da Morte

“Hoje o cheiro nem está tão forte”, em meio a um sorriso de canto de boca, foi o que me disse a funcionária da recepção do laboratório de necropsia do Instituto Médico-Legal (IML) de Curitiba, quando eu perguntei se ela já havia se acostumado com o cheiro depois de quase dois anos trabalhando naquele local, onde, cá entre nós, muitos jamais trabalhariam. Naquele momento, tenho que confessar que até me assustei e fiquei imaginando como seriam nos dias que ela julga o ambiente com um forte odor. O papiloscopista, Alfredo Prado, que nos mostraria o IML, como ele funciona e mataria nossas curiosidades, não havia chegado até esse momento, então, apreensivas, eu e mais três colegas de faculdade resolvemos aguardar do lado de fora. Enquanto olhava aquele céu sem uma nuvem sequer – um fator raro em Curitiba, diga-se de passagem –  me peguei pensando no que me motivava estar ali. Reparei em cada detalhe que meus olhos eram capazes de captar. Na simples arquitetura do prédio, na pintura amarela já desbotada, nas flores começando a brotar nos canteiros próximo a porta da recepção, nos carros estacionados no pátio – entre eles algumas viaturas da Polícia Científica – eis que um desses veículos me chamou atenção: todo retorcido, com os vidros quebrados, airbag inflado, ou seja, um típico carro que deu perda total em algum grave acidente de trânsito.

O veículo destruído, que ainda tinha marcas de sangue, era um carro do IML que se envolveu em um acidente grave em março deste ano. Me lembro bem da repercussão do caso:  em um dos milhares cruzamentos da capital paranaense, um outro veículo que fazia uma conversão proibida atingiu o carro do IML e o lançou contra um poste. Dirigindo o carro, estava o médico legista de 66 anos, Alexandre Antonio Saab Gebran Neto, que ficou preso nas ferragens. Gravemente ferido, o médico foi levado ao hospital, mas faleceu na manhã seguinte.

Até me deparar com esses destroços do acidente, eu ainda não tinha parado para pensar na seguinte questão: em toda e qualquer morte de forma violenta ou suspeita, os corpos são encaminhados ao Instituto Médico-Legal onde os legistas fazem a necropsia que aponta a causa da morte. Vidas perdidas no trânsito se encaixam em mortes violentas, o que quer dizer que o mesmo local em que Neto trabalhou por mais de 30 anos – segundo funcionários do IML – onde, de forma natural como qualquer outro trabalho ético, ele abriu inúmeros cadáveres, determinou causas de muitas mortes, consolidou sua carreira e, consequentemente, fez amizades, recebeu seu corpo. Confesso que senti uma imensa agonia ao imaginar que seus colegas de trabalho fizeram sua necropsia – e logo já estava cheia de dúvidas.

Antes que eu pudesse começar a questionar os funcionários que ali estavam sobre o caso, Alfredo chegou sorridente para mais um dia de trabalho: “E aí meninas, preparadas para ter um dia com a morte?” , brincou enquanto nos cumprimentava.

Então, me preparei para entrar no laboratório de necropsia duas luvas em cada mão, jaleco, cabelo preso e máscara. Eu não sei se palavras dão conta de descrever o que eu senti, quando aos poucos e com receio, fui chegando perto das mesas onde havia cadáveres sendo abertos.

Alfredo me interrompeu:

-Vou mostrar a vocês o pior primeiro: um corpo podre. Se vocês aguentarem isso, aguentam todo o resto.

 

Quando descobriu o cadáver, não dava para dizer que era um humano, parecia, na verdade, um tronco de árvore. Um cheiro de dar ânsia, larvas e moscas em cima, definitivamente uma cena chocante que muitas pessoas não aguentariam ver por muito tempo. Logo saímos dali e voltamos para a sala de necropsia.

Naquele instante parei diante da morte e comecei a refletir sobre a vida. Parece estranho, mas foi a única coisa que comecei a fazer. O cheiro daquelas pessoas mortas impregnou em meu nariz, nas minhas roupas de tal forma que eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser em como a gente não dá valor nos pequenos momentos de nossa vida, por motivos banais sem nos dar conta que o dom da vida é apenas um sopro.

Um rapaz que aparentava ter uns 24 anos e morreu atropelado e dois moradores de rua assassinados foram as necropsias que acompanhei. Três homens e morte violenta lado a lado. Enquanto o auxiliar de necropsia preparava para abrir o corpo de um dos moradores de rua, me perguntou se eu gostaria de ajudar:

-Você tem coragem de abrir um corpo?

Sorri de canto de boca porque achei que ele estava brincando, mas o rapaz insistiu:

-Sério, você tem coragem?

Disse que sim, mas confesso que um pouco de medo. Tentei abstrais toda a situação de que abriria um corpo humano. O moço, o que me convidou para essa experiência, disse que me deixaria abrir a cabeça porque é mais fácil que o tórax e o abdômen. Creio que foi apenas nessa hora, quando ele disse “você vai abrir a cabeça” que meu cérebro processou o que eu estava prestes a fazer. Baixinho, fiz uma oração à alma daquele homem, cujo nome ou história não sabia, como uma maneira de pedir licença para, de certa forma, invadir seu corpo morto com um bisturi.

“Ai meu Deus!”, dizia o meu coração enquanto eu pegava o bisturi. Mas, tentando fazer uma expressão de que estava tudo certo, fui seguindo as instruções dos profissionais acostumados a abrir pessoas, ou corpos, melhor dizendo, já que estão sem vida. Segurei firme a cabeça do homem e cortei a cabeça ao meio, de uma orelha a outra. Fui orientada a ir passando o bisturi entre a pelo e o osso do crânio, para ir descolando. Não sei o que eu pensei. Mas sem quaisquer dúvidas, o cheiro era a coisa mais difícil de suportar em toda aquela situação. Os funcionários do ILM dizem que acostuma logo e depois de uns dois meses já nem incomoda mais. Dão até algumas dicas de como disfarçar o odor, como passar VIC no nariz. Se é verdade? Não sei!

Logo depois fui até a sala das geladeiras onde armazenam os corpos que, por algum motivo, não podem ser enterrados pois não foram identificados ou reclamados. Lá, teoricamente o cheiro deveria ser mais leve, mas, por conta das más condições dos equipamentos que às vezes acabaram deixando ne funcionar por alguns minutos, horas e até mesmo alguns dias, não difere muito de onde os corpos são abertos.

Há 60 geladeiras na sala. Cada uma deveria armazenar um corpo, mas isso é apenas na teoria: algumas têm até três corpos aguardando liberação para ser enterrados. Ao lado de uma das geladeiras eu me peguei pensando, tentando entender todo o sentido da vida e da morte. Antes de ver o cadáver podre, Alfredo me disse que o podre era a pior coisa do IML, e sinceramente, preciso discordar. O podre é pratic amente impossível de perceber que se trata de um corpo, diferente do que acabou de morrer, que o sangue, muitas vezes, ainda está quente, tem afeição humana.

E o cheiro? Ah, o cheiro! Quando eu era criança, meus avós moraram em uma chácara e às vezes meus tios matavam os porquinhos que eles criavam para fazer churrasco. Lembro perfeitamente o cheiro dos porcos mortos, e por mais horrível que eu me sinta fazendo essa comparação, o cheiro do IML me lembrava muito, mas muito mesmo o cheiro dos corpos. E, pelo jeito, eu não estava errada: o médico legista que estava de plantão naquele dia disse que anatomia do porco é muito parecida com a humana, isso se explica o porquê eu assimilei muito os cheiros.

Cheguei em casa e fui tomar um banho para tentar relaxar e absorver a quantia de coisas que eu havia presenciado e também para ver se aquele cheiro saía do meu nariz.  E o que será que tinha para o jantar? Sim, carne de porco. Coloquei a carne no prato e fiquei olhando um tempo para ela e minha mãe de longe observava sem falar nada. Comi, mas não a quantidade que comeria normalmente.

A morte tem cheiro e ele não é bom. Ninguém sabe o que é a morte, mas agora eu sei o cheiro dela. Depois desse dia no IML, se eu pudesse dar um único conselho a todas as pessoas, eu diria para elas viverem a vida intensamente, sem medo, sem receio e com luz, já que o tempo todo estamos correndo risco de acabar em uma bandeja do IML, sem vida, com corpo literalmente todo aberto e com um cheiro que se confunde com o odor de porcos.

Karla Mirela Brook

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