Em um relacionamento sério consigo mesmo

Sobre amor, homossexualidade e aceitação

Eduardo Vernizi

“Nós nos conhecemos pela internet”, essa frase tem se tornado muito recorrente na hora em que casais contam suas histórias, já que a tecnologia de hoje tem aproximado pessoas com gostos comuns, que talvez nunca se encontrassem fora do universo virtual. Não foi diferente para Alexandre e Gabriel, os dois se conheceram por meio de um amigo em comum de uma plataforma digital, um jogo online para ser mais exato, começaram a conversar e decidiram se encontrar. Se encontraram, se beijaram, se amaram. Decidiram então ficar juntos, em menos de uma semana já estavam namorando, com alianças nos dedos, saindo juntos, jogando juntos. E foi assim, simples assim, comum, normal, nada de especial apenas amor, um simples amor como de qualquer outro casal.      

 

Entre uma curtida e uma “stalkeada” no instagram, Luiz e John resolveram trocar de rede social e foram para o facebook conversar. Papo vai, papo vem e a distância entre as telas começou a incomodar, resolveram então dali uma semana se encontrar, e assim foi feito. Sete dias se passaram e o que antes só era visto pelo quadrado da foto de perfil, se tornou real, mas naquele primeiro dia só conversaram ainda mais. Foram além das perguntas de gostos e preferencias e resolveram se conhecer além da superficialidade, gostaram. Se gostaram. Foi mais do que uma curtida de foto, foi uma curtida de personalidade. A tarde passou, já era hora de ir para casa, mas antes um beijo, só um, coisa rápida, mas suficiente. Voltaram para aquela antiga rede social e marcaram um novo encontro e desde então se juntaram como um casal, e desde então se encontram todos os dias.

 

Se conhecer na faculdade, outro clichê romântico de diversos casais reais e ficcionais, porém, acontece com uma grande frequência, já que a faculdade é um lugar novo, com pessoas novas e que, provavelmente, terão os mesmos interesses que você, então fica fácil encontrar sua cara metade. Foi o que aconteceu com Giovanna e Andrie, elas resolveram fazer um trabalho de faculdade em um grupo no qual ficassem juntas, ambas com segunda intenções, e sem mais nem menos, Andrie convidou Giovanna para fazer o trabalho em sua casa, Giovanna aceitou. Ficaram, e de um lance casual um relacionamento foi crescendo, os sentimentos aflorando e quando se deram por conta já estavam namorando sério, e muito sério.    

 

Alexandre se “descobriu” gay aos dezesseis anos, esta descoberta surgiu quando ele, conversando com algumas amigas, chegou a esse raciocínio “será que eu sou gay mesmo?”. Foi então que rolou a oportunidade de uma experiência, “foi estranha, mas gostei”, de primeiro momento se identificou como bissexual, mas depois percebeu que não era assim, e de vez se assumiu gay. Gabriel sempre teve certas dúvidas sobre sua sexualidade, sempre se sentiu “diferente”, porém ao doze anos percebeu quem realmente era, aos dezesseis começou a namorar e a se reconhecer cada vez mais. O namoro não durou muito, nem a incerteza, três anos depois conheceu Alexandre e se assumiu, para ele mesmo, para a família, para o mundo, assumiu que também sabia amar.      

 

O período de descoberta e aceitação pessoal não é fácil, ainda mais quando existe o medo da rejeição por parte da família e da sociedade. Luiz afirma que sempre se sentiu “diferente” dos meninos de sua escola e vizinhança, mas confessa que só entendeu de fato o que sentia quando, aos treze anos, beijou um garoto pela primeira vez, “foi uma confusão, ao mesmo tempo que tava querendo aquilo, eu tinha meus pais e a sociedade, foi bem difícil”, mas como muitas coisas da vida, o tempo difícil passou e hoje, já com aceitação total da família, Luiz não se importa com a opinião alheia. John também sempre sentiu que tinha algo de diferente, desde pequeno, mas aos treze anos, John começou a se entender, aos quatorze a se aceitar e só hoje, aos dezoito, a se assumir. A situação não foi tão boa quanto a de Luiz, seus pais não aceitaram a forma de amar do filho e o expulsaram de casa, apesar da dor que isso tenha causado, John se mostra feliz, por ter deixado aflorar o sentimento que ele repreendeu por anos, se mostra feliz por poder ser, finalmente, o que sempre foi.

 

Giovanna quando tinha mais ou menos treze anos percebeu que não gostava muito de meninos, percebeu que tinha alguma coisa a mais, porém se auto declarou bissexual, ainda achando que havia uma chance com os meninos. Aos dezessete anos percebeu que não, não gostava de meninos, achava eles muito irritantes, e se assumiu sim, se assumiu homossexual. Andrie também se declarou bissexual em primeiro momento, saiu do armário pela metade, quando tinha quatorze anos ficou pela primeira vez com uma menina. Coincidentemente, ou não, quando foi fazer um trabalho na casa desta amiga as duas ficaram e Andrie se percebeu, se assumiu e respondeu “sim, sou gay”.

 

Compreender a homossexualidade pode ser difícil para algumas pessoas, perguntas como “porque alguém é homossexual?”, ou “como alguém virou homossexual, será que nasceu assim ou ficou assim ao longo do tempo?”, acabam sendo recorrentes para muitas pessoas. Para a psicóloga Valeria Beatriz Araújo questões sobre homossexualidade, ou sobre essa descoberta, não possuem uma resposta universal.

 

Para Valeria Beatriz não é possível identificar um fator genérico para as razões pelas quais uma pessoa se percebe homossexual e nem para definir em qual idade essa percepção ocorre. Para ela esses fatores são definidos por experiências particulares de cada indivíduo, fatores que possam ter tocado o indivíduo gerando essa percepção da homossexualidade, que se difere do que seria a sexualidade por fatores biológicos. De caso para caso, de pessoa para pessoa, de indivíduo único para indivíduo único, a sua sexualidade é de cada um, exclusiva e particular.  

 

Além da questão de compreender, existe uma outra questão ainda mais importante, aceitar a homossexualidade de outros indivíduos. A professora e socióloga, Eliane Basilio de Oliveira, garante que apesar de nos encontrarmos em uma sociedade dita moderna, casais homossexuais ainda enfrentam muita dificuldade e preconceito, no trabalho, nos espaços públicos e até mesmo na família. A professora agrega isso ao fato de vivermos em uma sociedade heteronormativa; ou seja, desde o começo da educação e formação do indivíduo, a heterossexualidade é norma, tida como correta e natural. Apesar da sociedade ainda ser retrograda em relação a isso, Eliane ressalta a importância das graduais conquistas que vem acontecendo em pró da população LGBT.

 

Para a socióloga o direito conquistado pelos homossexuais em 2011, de ter reconhecimento legal de sua união estável é de extrema importância pois garante o acesso aos direitos sociais que antes eram negados a este grupo, como o direito à adoção, e ainda colocou a temática da homossexualidade em evidência na sociedade e na mídia. Quanto ao futuro, Eliane acredita que a mudança tem que vir da base, da formação e da educação dos indivíduos como cidadãos, para que não seja necessário existir lutas na área da saúde, da religião e da política, lutas essas que são bastante frequentes nos dias atuais, como por exemplo a defendida “cura gay”, onde o homossexualismo é tratado como doença.

 

Sobre Curitiba ser uma cidade livre de preconceitos Alexandre afirma, categoricamente, que não, Curitiba não é livre de preconceitos, porém ressalta que existem lugares, e segundo ele não são poucos, que aceitam com mais facilmente um casal homossexual. Para ele existem lugares em que ele sabe que será maltratado, e que sabendo disso, decide poupar a si mesmo e a seu parceiro de tal constrangimento, e resolve ir para algum lugar mais acolhedor, e conclui “você não precisa ficar recluso, dá para ter uma vida normal”. Gabriel começa dizendo que “Lógico que preconceito vai ter em todo lugar, mas eu acho que Curitiba é uma cidade muito boa para se viver.”. Por ser um pouco desligado nunca notou muitos olhares, além disso ele e Alexandre não tem o costume de andar muito abraçados ou de mãos dadas, outro fator que, para ele, contribui para “não chamarem muita atenção”.      

 

Comparando com a cidade do interior em que morava, Luiz garante que Curitiba é uma cidade que aceita muito bem os casais homossexuais, fala que pela quantidade de pessoas é possível passar tranquilamente sem chamar atenção, já no interior o povo fala, conhecendo ou não, fala mesmo. Luiz ressalta que ele nunca sofreu nenhum tipo de agressão, física ou verbal, e atribui muito isso ao fato de não ter tanto contato físico com John fora de casa, simplesmente por não verem a necessidade, porém assume que olhares e risadinhas sempre vão existir. John defende que depende muito de onde você vai, garante que existem até lugares onde pessoas comentam quão bonito eles ficam juntos, mas que em outros lugares é, infelizmente, necessário que eles monitorem cada movimento, evitando assim situações desagradáveis. John admite que existem muitos olhares, alguns de reprovação, outros de ódio, de medo, de nojo, é possível perceber, é possível sentir, é possível se magoar, John não é tão otimista com a cidade.

 

“Tem lugares e lugares” foi com essa frase que Giovanna definiu como enxerga Curitiba, e é assim que muitas situações que fogem do “tradicional” são tratadas. Segundo ela, baseada nos lugares que frequenta, Curitiba é uma cidade aceitável, apesar de ainda existirem caras carrancudas na cidade sorriso, mas para Giovanna é muito mais fácil ignorar os olhares e os comentários negativos, “eu também não to nem ai pro que falem, entra por um ouvido e sai pelo outro”. Andrie também vê como uma questão de “depende de lugar para lugar”, garante que se sente bem nos lugares onde frequenta, sua faculdade também lhe proporciona situações de boa convivência, mas os comentários negativos existem, porém acredita que seja um pouco mais fácil lidar devido a sexualização que acontece quando se trata de um casal de lésbicas, “tem essa questão de ver duas mulheres juntas como algo sexy, então eu acho que por eu ser mulher é mais fácil (a aceitação)”.

 

O preconceito ainda existe, com menos força talvez, ou apenas camuflado, sutil, discreto e o pior de tudo, sorrateiro, mas dentro das opções, o que seria pior? Ele em sua forma bruta, com agressões ou ele velado por olhares discretos e comentários baixos? Talvez a melhor opção fosse uma aqui não citada, seria melhor se esse preconceito não existisse, de nenhuma forma. Que a intolerância e a ignorância fossem substituídas pela complacência e pela bondade, e que a felicidade alheia não incomodasse a ninguém. Mas infelizmente essa ideia ainda está longe de ser realidade, nos resta apenas torcer para que no futuro prevaleça o respeito a diversidade acima de toda e qualquer forma de preconceito.

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