As novas formações dos lares brasileiros

Catherine Baggio

Pai, mãe e filhos. De preferência um casal. Difícil saber desde quando é assim, mas por muito tempo foi essa a clássica composição familiar que reinou nos lares brasileiros. A questão é que hoje em dia esse modelo não é mais o predominante no Brasil. Hoje, com madrastas, padrastos, filhos de antigos casamentos ou casais do mesmo sexo e filhos adotivos, as possibilidades são infinitas. E ainda mais importante, as possibilidades são aceitas. Ou quase.

Essas diferenças sempre existiram, mas vivendo em uma sociedade conservadora, elas nem sempre ganhavam seu espaço. O que talvez seja uma razão para que este cenário esteja mudando é o fato de que, teoricamente, vivemos hoje em uma sociedade mais moderna, que aceita as diversidades.

O último Censo do IBGE, em 2010, comprovou que a família tradicional já não é mais maioria no Brasil, sendo responsável por 49,9% dos lares. O outro lado, que já soma 50,1%, enquadra os mais variados tipos de famílias, como casais sem filhos ou três gerações vivendo juntas, considerando ainda amigos que dividem o mesmo teto. O que pode parecer uma diferença pequena de pontos percentuais ganha grandes proporções pelo fato de que foram visitados 67,6 milhões de domicílios nos 5.565 municípios do país.

O caso da Natalia Lucas, de 16 anos, é um exemplo das famílias “mosaico”, cada vez mais frequentes, que surgem quando casais formam novas famílias com filhos de antigos casamentos. A mãe, Morgana Lucas, casou-se de novo quando a Natalia e Nicole, sua outra filha, ainda eram crianças. A partir daí, os laços das meninas com o padrasto, Williams Zanatta, foram se estreitando cada vez mais, à medida que passaram a considerá-lo como pai, uma vez que o biológico não se fez presente.  

Ela conta que algumas pessoas estranharam a situação no início, mas que aceitaram bem com o tempo. Entretanto, até hoje Terezinha, mãe de Wiliams, recusa-se a ver as meninas como netas. “Ela acha que eu e a minha irmã estamos erradas, já que não procuramos nosso pai, não ligamos para ele, nem o vamos visitar. Mas como nós vamos fazer isso se no momento que ele precisava estar presente, sendo pai, ele não estava?”, indaga Natalia.

Depois de encontros e desencontros, foi essa família diferente que uniu a irmã postiça de Natalia, Giovana, e Rogerio, tio da menina, que hoje têm um filho. Seria ele sobrinho da Natalia? Primo? Será que isso realmente importa? São todos parte de uma mesma família, independente do formato.

Uma questão que tende a ser um pouco mais delicada, por conta das diferentes opiniões presentes na sociedade, é a das famílias homoafetivas. O Supremo Tribunal Federal reconhece desde 2011 a equivalência entre as uniões de homossexuais e heterossexuais para a formação de uma família, entretanto, em 2010, elas já eram 60 mil no país, segundo o IBGE, sendo que a maioria, 53,8%, era formada por mulheres. Segundo a coordenadora de indicadores sociais do IBGE, Ana Saboia, duas mulheres juntas geralmente sofrem menos preconceito e tem mais facilidade de reportar esta condição ao recenseador.

No entanto, Daniel Casagrande e Luiz Maganhoto formam um casal que não teve medo de enfrentar o preconceito. Juntos há 16 anos, tomaram a decisão de aumentar a família no ano de 2012, através do caminho da adoção. Oito meses se passaram desde a entrega da documentação e realização do curso exigido até a habilitação do casal.

Ao descrever a criança que eles imaginavam, Luiz e Daniel pediram uma menina de 1 a 5 anos, de qualquer raça, que pudesse ter problemas de saúde tratáveis. Esta última característica foi a que abriu o caminho deles até Antonella, uma menina de Cascavel, no Paraná, que na época tinha 1 ano e 4 meses. Ela nasceu com 6 meses e 600 gramas e foi abandonada pelos pais no hospital. Segundo Daniel e Luiz, a mãe tinha tuberculose e tomou medicamentos altamente abortivos durante a gravidez.

“Por causa da prematuridade dela e do estímulo com os medicamentos ela desenvolveu ‘Cranioestenose’, que basicamente é o fechamento da moleira antes do tempo, então o cérebro dela tinha que crescer para algum lado e estava crescendo para cima”, conta Daniel. Por conta destes fatores, ninguém queria adotá-la na cidade. Eles contam que quando levaram os exames da menina à uma neuropediatra ela indagou: o que vocês tão esperando para ficar com ela? Farão a diferença na vida desta menina.

Antonella foi então submetida à uma cirurgia cara e de alto risco que, felizmente, foi um sucesso e não deixou sequelas. Quando a menina estava com dois anos ela ganhou um irmão que veio pelo mesmo caminho que ela. Lorenzo é filho biológico de pessoas que perderam o rumo por conta das drogas. A mãe, que o teve com 17 anos, foi assassinada quando Lorenzo tinha 3 meses de vida. Além da falta de interesse no menino, o pai perdeu a guarda por conta do vício e falta de condições financeiras.  

Mas o destino mais uma vez sorriu para Daniel e Luiz, que depois de passarem por toda a burocracia necessária, tornaram-se oficialmente pais do Lorenzo. Hoje, eles contam que aprendem todos os dias com os dois filhos, “eles têm acrescentado muito e nos fortaleceram em muitos aspectos. Agora a nossa vida é para eles”, declara Luiz.

Sobre o preconceito, eles dizem que não costumam sofrer, mas que muitos amigos se afastaram durante o processo de adoção e que os olhares diferentes nas ruas pouco os afetam. Eles dizem que desde sempre contam para os filhos que eles vieram da barriga de uma mãe que os amou durante alguns meses, mas que não puderam ficar com eles e agora eles têm dois pais que cuidam deles.

Histórias como essa e de outros modelos de famílias modernas têm sido frequentemente apresentados na mídia, seja em programas de ficção ou não. Ainda que seja de forma tão superficial, com personagens caricatos, esta questão vem incomodando muitas pessoas e grupos mais conservadores, que afirmam que isso pode influenciar o comportamento e as decisões de crianças.

No entanto, essas programações têm como objetivo a inserção social desses tipos de família no meio da dramaturgia demonstrando a maneira como a sociedade é atualmente. É imprescindível que as pessoas aprendam a lidar com as diferenças para que o preconceito possa diminuir, visto que em determinado momento a família dita “tradicional” pode ter uma nova composição.  

Embora o Brasil seja um estado laico, grande parcela de sua população segue os ensinamentos bíblicos. Por esta razão, o fato de que a Bíblia declara que a prática do homossexualismo não agrada à Deus e que “O que Deus uniu, o homem não separa”, sendo contra o divórcio, tem como consequência o preconceito de muitos religiosos contra as novas famílias.

Contudo, espera-se que este cenário mude um pouco por conta do Papa Francisco ter declarado respeito aos homossexuais diversas vezes. “A igreja deve ser uma casa aberta a todos, e não uma pequena capela focada em doutrina, ortodoxia e em uma agenda limitada de ensinamentos morais”, afirmou o pontífice.

Se a regra antes era mulher casar com homem e ter um belo casal de filhos para todos serem felizes para sempre, hoje, felizmente, a regra é não ter regra. A medida que o tempo passe espera-se que cada vez mais, toda forma de amor seja considerada justa, seja válida, seja aceita. E que nenhum olhar torto na rua impeça isso.

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