A menina de Ravensburg

Uma infância que combinou bombas com brinquedos para, mais tarde, encontrar refúgio no Brasil.

Paulinne Giffhorn

O som sibilante das bombas embalou durante muito tempo a infância de Rosemarie Ketschkesch. Em meio às suas brincadeiras, nem sempre correr era sinônimo de se divertir. Às vezes era preciso correr para se proteger, para escapar do mal que estava presente em sua cidade e também em todo o mundo. A Segunda Guerra Mundial iniciou-se alguns anos antes de Rosemarie nascer, fazendo com que ela chegasse ao mundo, em 1942, em um cenário de total caos.

Ela e sua família se refugiaram na cidade de Ravensburg, deixando para trás suas casas e todos seus bens. Antes dos maiores problemas com a guerra começarem, o pai de Rosemarie trabalhava em uma transportadora de carvão mineral e sua mãe o ajudava em todas as tarefas. Mesmo com a guerra, os estilhaços e as bombas, a menina encontrava formas de se divertir. Durante um ataque à cidade, Rosemarie encontrou uma caneca do príncipe da cidade dentro de seu carrinho de bonecas – objeto que ela guarda com carinho até hoje.

A vida durante e após o período de guerra era muito árdua, pois em pouco tempo tudo que as famílias construíram ao longo dos anos, fora perdido. Rosemarie, no entanto, recorda que a vida era muito organizada: “Nós viviamos em alojamentos, alguns quartos abrigavam duas ou até três famílias. A Cruz Vermelha nunca desprezou essas famílias e quase sempre enviavam alimentos para auxiliar-nos”. Nos pacotes enviados pela organização, Rosemarie conta que vinham alguns tipos de comida em pó, como ovos e leite e alguns alimentos que já chegavam embolorados, como pães e batatas. A solução era colocar tudo na brasa, para que não sentissem o gosto ranso da comida vencida.

Aos sete anos, em 1949, Rosemarie, seu pai e sua mãe – grávida de seu irmão -,  iniciaram a trajetória em busca de um futuro melhor. Na época, todos acreditavam que “fazer a América” seria a solução para os problemas que agravavam cada vez mais a realidade na Europa. Sua família perdera tudo e só de ter a possibilidade de começar tudo novamente, deixando as lembranças sombrias para trás, já fazia com que tudo parecesse estar melhor. A viagem para o Brasil durou cerca de 14 dias e 14 noites e foi promovida pela ONU. Dentro do navio General Stuart II, os ventos sopravam a favor dos tripulantes. “Embora fosse um navio de guerra, nós tínhamos todo o conforto que era preciso, bom alojamento e boa comida. Ao chegarmos no Brasil já não foi bem assim”, recorda.  A primeira parada de Rosemarie e sua família foi no Rio de Janeiro, na Ilha das Flores, onde todos os imigrantes presentes no navio foram simplesmente despejados para que encontrassem alguma tarefa ou local que os acolhesse. Após algum tempo, um fazendeiro de muito dinheiro alojou a família de Rosemarie em sua propriedade em Goiânia. Nessa fazenda, o pai de Rose auxiliava empregados da propriedade a fazerem os trabalhos da serraria do local.

Um ano após terem chegado ao país, a mãe de Rosemarie passou a se preocupar com a educação dos filhos. Na fazenda na qual estavam morando, não existiam oportunidades de estudo e para não tornar as crianças também dependentes apenas dos trabalhos da fazenda, ela resolveu mudar de cidade. Foi assim que a menina de Ravensburg chegou à Curitiba. A viagem de trem de Goiás para a capital paranaense durou três dias e na ocasião todos chegaram a dormir na praça da Estação da Luz, em São Paulo, antes de se estabelecerem na nova cidade.

A pior parte da adaptação ao país foi a língua. Como desde sempre falaram a língua germânica, acostumar-se com o português era uma tarefa muito difícil e os pais de Rosemarie não chegaram a aprender corretamente a língua. Rosemarie ainda carrega consigo um sotaque forte e muitas vezes se comunica com o filho em alemão. Hoje, Rosemarie afirma ser brasileira. Ela mudou sua nacionalidade e construiu uma família aqui. Ela não faria nada para voltar à Alemanha. “Eu amo o Brasil, amo o povo brasileiro. Minha verdadeira razão de viver está aqui”, declara.

 

 

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