A Curitiba muçulmana

Hannah Cliton

Quem passeia pelo centro histórico de Curitiba, na região do Largo da Ordem, pode não saber, mas a alguns metros encontra-se um dos poucos templos religiosos do mundo onde sunitas e xiitas rezam lado a lado. Mais especificamente na rua Kellers, número 383, a construção de azulejos azuis abriga a Mesquita de Curitiba, batizada de Imam Ali Ibn Abi Tálib em homenagem ao primo e genro do profeta Maomé que também é considerado seu sucessor pela corrente xiita. Aos domingos, das 10h30min às 13h30min, ao mesmo tempo em que a feira do Largo da Ordem acontece rua abaixo, a mesquita de Curitiba está aberta para receber visitantes. Muitos não passam dos portões de ferro, admirando de longe as duas torres, chamadas minaretes, que apontam para o céu. Outros ficam pelas escadas, tirando fotos ou apenas conversando com os frequentadores. Poucos são os que se arriscam a deixar os sapatos na porta e entrar no local forrado de tapetes persas, em que uma música árabe faz com que o visitante esqueça que aquele lugar de paz fica instalado em um bairro tão movimentado.

As mulheres, além de deixar os sapatos, também precisam cobrir os cabelos com um véu, que pode ser emprestado na porta da mesquita. Para as não iniciadas, alguns têm elásticos ou capuzes para facilitar, e sempre há um muçulmano, ou muçulmana, disposto a ajudar. De acordo com as leis islâmicas, a mulher não é obrigada a usar o véu, mas recomenda-se que seja usado em lugares sagrados, como a mesquita, ou na presença de homens que não sejam da família. As muçulmanas geralmente usam o véu mais curto, que cobre os cabelos e é preso na lateral do rosto, mas os que são emprestados na entrada da mesquita cobrem da cabeça aos pés e são presos sob o queixo. Em uma manhã de um domingo nublado no início do inverno, uma gentil muçulmana de óculos e véu azul-marinho me entregou um longo pedaço de tecido branco com pequenas flores azuis. Olhei para o elástico preso na metade do comprimento e não soube o que fazer, mas ela me ajudou a prendê-lo sob o queixo. Depois de dona Neide Castaman me ajudar a esconder os cabelos sob o véu, fiquei sem saber como agir com todo aquele tecido me cobrindo da cabeça aos pés.

Na visão ocidental, o véu pode parecer uma forma de oprimir a mulher, mas no islamismo o objetivo é protegê-la contra o assédio masculino. Gamal Oumairi, diretor religioso da Sociedade Beneficente Muçulmana, diz que a religião islâmica recomenda, mas não obriga, que a mulher use uma vestimenta que cubra o cabelo e o corpo. “O véu tem a função e a utilidade de proteger a mulher, principalmente contra o assédio masculino. A religião recomenda o uso da vestimenta islâmica para que o respeito e a dignidade da mulher sejam assegurados e para que ela não atraia o homem pela sua aparência física, e sim que o homem conheça o seu interior e os verdadeiros valores que ela tem como ser humano”, explica.

Para Neide Castaman, 50 anos, o uso do véu foi uma transição natural durante o processo de reversão. Ela é de família católica e estuda o Islã há um ano, mas ainda não completou a chamada reversão, que é a efetivação da conversão para o islamismo. Neide conta que apesar de não usar o véu no dia a dia, apenas na mesquita, não se sentiu incomodada ou desconfortável. “Eu me sinto muito confortável, me sinto protegida, parece algo natural e que não incomoda”, opina. Ela conta ainda que só não o usa no dia a dia porque dificultaria seu trabalho, como compradora no almoxarifado de uma escola. “Eles têm esse respeito muito grande pela mulher, então todas essas regras fazem ver a importância que eles dão aos ensinamentos que têm no Alcorão”, completa. A questão é polêmica e mais complexa do que parece à primeira vista, mas a diferença é evidente: as visitantes da mesquita, obrigadas a usar o véu, muitas vezes pela primeira vez na vida, ficam visivelmente incomodadas e sem saber como agir sob o tecido. Já as muçulmanas são o oposto, plenamente confortáveis e seguras, com os seus véus coloridos e em harmonia com o resto da roupa.

 

Islamismo como filosofia de vida

Neide veio de família católica e decidiu ser muçulmana aos 50 anos, pois sentia que faltava algo em sua vida. Gamal nasceu em uma família muçulmana, mas decidiu aprofundar os estudos islâmicos pelo mesmo motivo, em busca de um sentido para sua vida terrena. “O islamismo começou a me dar um norte, uma orientação, um objetivo de vida. Daí eu me senti seguro para começar a me aprofundar, estudar e, principalmente, praticar, porque religião é prática religiosa”, conta ele que, como diretor religioso da Sociedade Beneficente Muçulmana, vai à mesquita todos os dias. Para ela, que frequenta o grupo de estudos religiosos e procura ajudar na mesquita sempre que pode, o sentimento foi de reencontro. “É como se você estivesse se encontrando com as suas raízes”, explica.

Reversão é como é chamada a conversão para o islamismo, processo que não tem um tempo definido e varia de acordo com cada pessoa. O termo é usado porque, segundo os muçulmanos, o Islã é o instinto natural das pessoas, que podem acabar se afastando e, depois, retornando ao islamismo. Por não ter completado seu processo de reversão, Neide ainda se considera uma aprendiz, mas conta que está recebendo todo o auxílio da comunidade da mesquita, assim como a compreensão da família e colegas de trabalho. “Eles te dão todo o tempo e o amparo que você precisa, eles não te cobram e querem que você faça uma reversão consciente, e com a certeza de que você está fazendo a coisa certa”, conta. O processo de reversão se completa depois de uma entrevista com o sheik que decidirá se a pessoa está preparada para se tornar muçulmana. Antes, porém, é preciso estudar e se certificar da sua escolha.

 

Histórico

A Mesquita de Curitiba foi fundada em 1972 pelos membros da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná, que não tinham um local apropriado para realizar os cultos. A obra demorou cerca de dois anos para ficar pronta, e só aconteceu graças às doações da comunidade muçulmana. A arquitetura segue o modelo das mesquitas tradicionais, com cúpula e dois minaretes do lado de fora, o que chama a atenção de turistas e visitantes, que geralmente param para olhar.

Esses imigrantes, em sua maioria libaneses, recebiam suporte e instrução, mas a sociedade também tinha a função de ajudar pessoas e entidades sociais, o que se mantém até hoje. “A nossa sociedade arrecada mantimentos, roupas e doações e destinamos a essas entidades. Para nós, é importante esse trabalho de tentar auxiliar o Brasil que nos acolheu tão bem. Você acaba retribuindo em forma de benefícios sociais”, conta Gamal Oumairi, diretor religioso da sociedade, que atualmente também tem como um de seus objetivos divulgar o Islã e combater o preconceito contra os muçulmanos, chamado de islamofobia.

Oumairi conta que, nesse sentido, o trabalho dos muçulmanos é bastante árduo para desmistificar as ideias preconcebidas. Porém, o lado positivo é que há uma curiosidade de conhecer mais sobre a religião, o que faz com que muitas pessoas visitem a mesquita, cerca de 30.000 por ano, segundo o diretor. “A gente recebe pessoas de várias religiões e todas vêm com o maior respeito e agradecem muito a oportunidade de visitar, de fotografar, de interagir com a gente. E isso nos gratifica muito, porque a gente mostra que é uma religião que está aberta ao diálogo, e não uma religião extremista ou fundamentalista”, completa.

O mito do Islã como religião extremista está muito ligado à divulgação das ações do autointitulado Estado Islâmico, organização terrorista que não é reconhecida por nenhuma corrente teológica islâmica. As práticas do grupo se dizem baseadas no Alcorão, mas de uma forma deturpada e que vai contra as principais leis islâmicas. Os muçulmanos não o reconhecem e nem mesmo sentem-se representados por ele, já que o islamismo é uma religião que tem como base a paz, a união e a tolerância. Para Neide Castaman, “o erro é todo mundo julgar a gente por uma coisa só, e julgar a gente pela pior parte, que é uma minoria, mas que faz mais barulho”.

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