A chave do Pálacio de Cristal

Francisco Mateus

Das cinzas fez-se o Cristal

Banda curitibana A Chave (Rede Teia)
História da banda curitibana A Chave no Palácio de Cristal (Imagem: Acervo Câmara Municipal de Curitiba)

O glamour e o status estavam sempre presentes nos famosos bailes no grande salão do Círculo Militar. Não à toa, já que ali se encontravam os mais importantes militares do estado. Era entre aquelas paredes, onde celebridades como Cauby Peixoto e Elza Soares pisaram, que a classe média curitibana se encontrava.

Mas naquele sábado, 25 de abril de 1970, o ambiente até então de festividade, foi de repente interrompido e inundado pelos sons dos telefones que gritavam com urgência pelos militares do local. “O Teatro Guaira está pegando fogo!”. Começou uma correria dentro do clube, com os militares deixando o local e se dirigindo ao prédio em chamas.

Chegando à Praça Santos Andrade, já não havia muito mais o que fazer, a não ser engolir a tristeza por algo que nunca sequer havia chegado a abrir as portas, deixando todos os curitibanos carentes de um espaço para eventos culturais.

Porém, em 1973, um ano antes da reinauguração do Teatro Guaíra, é inaugurado o ginásio de esportes Brigadeiro Arthur Carlos Peralta, que recebeu este nome em homenagem a um dos presidentes do Círculo Militar nos anos 60, que devido à sua estrutura cheia de vidros, ficou popularmente conhecido por Palácio de Cristal, lugar que carrega em sua história o início do mercado de shows em Curitiba.

– Abre essa porta, deixe a Chave entrar

O sossego e a ordem do Círculo Militar foram violados pela efervescênte manada de jovens cabeludos que se estapeavam para passar pelas portas do Palácio de Cristal. Naquela noite de julho de 1973, Curitiba estava prestes a abrir os portões para duas décadas de grandes shows, e os responsáveis por tal acontecimento, faziam parte de uma banda cujo nome não poderia ser menos sugestivo para a ocasião: A Chave.
O grupo curitibano formado por Carlos Augusto Gaertner (produtor e baixista), Orlando Azevedo (baterista), Paulo Teixeira (guitarrista) e Ivo Rodrigues (vocalista), que de 1969 até 1979, topou com os principais nomes do rock nacional, foi quem virou de ponta cabeça o recém-inaugurado ginásio de esportes Brigadeiro Arthur Carlos Peralta, popularmente conhecido por Palácio de Cristal devido à sua estrutura cheia de vidros.

A banda já era conhecida pela realização de shows em vários espaços da cidade, sendo ela a precursora dos concertos ao ar livre em praças, e também dos shows de rock em teatro. Porém, em 1973, a grande novidade em termos de espaço para realização de shows, era o Palácio de Cristal. E não deu outra, A Chave com seu rock eletrificado por equipamentos de última geração, desbundou todas as mais de quatro mil pessoas sentadas nas arquibancadas, que ao fim da noite, sairam do ginásio sem imaginar que o melhor ainda estava por vir.

 

 

 

– X Horas de Rock

A fila para entrar no Círculo Militar dobrava o quarteirão. Do lado de fora, fumaça e energia no ar daquela gente reunida para assistir o Ginásio Brigadeiro Arthur Carlos Peralta explodir. Ninguém previa porém, que a explosão seria tão forte. Depois daquela noite de 21 de dezembro de 1973, o Secos & Molhados se tornaria o grupo de maior sucesso no Brasil.

A proposta para o show que recebeu o nome de “X Horas de Rock”, se sucedeu em São Paulo, em uma das muitas passagens d’A Chave pela cidade, que na ocasião, foi assistir o Secos & Molhados se apresentar. O conjunto já era sucesso na capital paulista com as músicas “O Vira”, “Fala” e “Amor”, que compunham seu primeiro LP, mas para Carlos Augusto e cia, que se impressionaram com a teatralidade latino-portuguesa do conjunto de Ney Matogrosso, toda aquela atitude era novidade.
Nos bastidores, após o fim do concerto, A Chave se encontrou com o baterista do Secos & Molhados da época, Marcelo Frias, de quem era amiga desde o tempo em que o músico integrava a banda argentina Beat Boys, famosa por ter se apresentado com Caetano Veloso em 1967 no Festival da Record defendendo Alegria, Alegria.

Orlando e Carlos falaram para Marcelo sobre a ideia de levar o Secos & Molhados para tocar em Curitiba, em um ginásio esportivo que havia sido inaugurado naquele mesmo ano. A proposta foi logo apresentada para Ney Matogrosso e João Ricardo, que toparam fazer o show e ainda dividir igualmente o cachê, 50% para os paulistanos e 50% para os curitibanos, deixando de fora o produtor do Secos & Molhados, Moracy do Val.

Não deu outra. Nos dias 21 e 22 de dezembro, o Secos & Molhados fez seu primeiro show fora de São Paulo, no Palácio de Cristal em Curitiba, aglomerando cinco mil pessoas na arquibancada do ginásio de esportes. A produção da apresentação ficou em cargo d’A Chave, que acompanhou toda a montagem dos equipamentos e a passagem de som. A acústica não era das melhores devido aos vidros e os metais que revestem o ginásio, mas com o amontoado de gente ao redor de palco, o som abafava e dava uma significante melhorada.

Ao fim dos dois shows, fez-se o balanço da arrecadação monetária: aproximadamente Cr$135.750,00, com cada banda faturando perto de Cr$ 67.875,00.

Depois destes shows, o Secos & Molhados começou a excursionar pelo país, não demorando muito a virar a maior sensação musical em 1974, com show no Maracanãzinho sendo exibido no Fantástico.

-Círculo vicioso

Em 1974, Os Mutantes seguiam ligados à tomada progressiva, tendo como único membro da formação original o guitarrista Sérgio Dias. Arnaldo Baptista se encontrava em uma profunda depressão lisérgica que resultou em seu trabalho mais cultuado, “Loki”. Já Rita Lee, depois de uma frustrada tentativa de seguir carreira ao lado de Lucia Turnbull com as Cilibrinas do Éden, decidiu voltar com tudo aos palcos com a banda Tutti-frutti.

Carlos Augusto já era amigo dos Mutantes desde 1969, dos tempos em que o rock’n roll ainda era visto com maus olhos pelos puritanos da MPB. Com Rita Lee lançando seu primeiro disco solo, “Atrás Da Cidade Tem Um Porto”, o produtor logo tratou de trazer a amiga para quatro shows em Curitiba, dois no Clube Curitibano, e dois no Palácio de Cristal.

A fumaça de gelo seco que cobria o palco já anunciava o incêndio musical que seria aquela noite. Das caixas de som, surge os primeiros acordes de guitarra, em seguida, Rita Lee, com um visual à lá Bowie, cantarola os versos iniciais de “Não quero mais nada”. Então, inicia-se um verdadeiro espetáculo de rock. Sérgio Carlini, com longos solos de guitarra, envolve as mais de quatro mil pessoas ali presentes, e Rita polemiza ao dar um selinho em Lucia Turnbull ao fim do cover de Splish-Splash.

O repertório do concerto, que durou mais de uma hora, mesclava músicas do disco “Atrás da Cidade…” com covers, e músicas nunca gravadas. Apesar dos problemas acusticos, o show tinha uma estrutura altamente profissional. Ao fim da apresentação, aqueles que quisessem levar para casa uma lembrança daquela noite, poderiam passar na tenda armada na arquibancada pela produtora Mônica Lisboa para comprar pôsters e vinis, mas nem daria tempo de sentir saudade, já que não demoraria muito para Rita Lee voltar a Curitiba e fazer outra apresentação naquele mesmo lugar.

– Shake, Rattle and Roll

O ano de 1974 terminou com a reinauguração do Teatro Guaíra, depois de quatro longos anos de espera. Novos ares sopravam para aquele ano de 1975 que estava prestes a se iniciar.

Em 12 de abril de 1975, pela primeira vez em Curitiba, Caetano Veloso subiu acompanhado de seu violão ao palco no Palácio de Cristal. Show cheio de reverberação, mas que resultou, para a felicidade do empresário Guilherme Araújo, em um faturamento de mais de Cr$100 mil.

Enquanto que o Palácio de Cristal era frequentemente lotado por jovens que iam ao ginásio para assistir aos shows de rock, o Teatro Guaíra fechava suas portas para eventos “barulhentos”. A decisão de não mais se realizar shows de rock no local, veio depois que o Bill Haley e a A Chave fizeram um show em outubro de 1975, reunindo centenas de jovens raivosos no teatro, que apesar de não ter gerado nenhum problema, preocupou os organizadores. “Não apenas nos aspectos materiais, mas, sobretudo em riscos humanos”, disse o superintendente Mauricio Távora na época.

Mas isso não desanimou a turma do rock’n roll, que ainda tinha o Palácio de Cristal como altar para veneração da música. Naquele mesmo ano, Rita Lee voltou a cidade com a turnê de seu disco de maior sucesso com o Tutti-Frutti, “Fruto Proibido”.

– Show underground

Nos dias 12 e 13 de junho de 1976, pela primeira vez no sul, O Made in Brazil ao lado d’A Chave, mostrou para a garotada que lotou o Palácio de Cristal, como é que se faz rock’n roll, resultando em zombidos nos ouvidos devido aos 4000 Watts de potência sonora.

A Chave abriu a noite soltando “Macacos Cósmicos”, fazendo todo mundo dançar, para então, depois de tocar um set-list robusto, o Made in Brazil subir ao palco e fazer o seu rock de São Paulo, tocando músicas de seu mais recente trabalho na época, “Jack, Estripador”.

Foi por uma denúncia de drogas que os investigadores da Divisão de Entorpecentes da DEIC de São Paulo bateram à porta da casa de Rita Lee em 24 de agosto de 1976. Gravida de três meses, a cantora foi presa em flagrante depois de os polícias terem supostamente encontrado pequenas quantias de maconha em sua residência.

Durante a prisão, Rita recebeu a visita de Elis Regina, que acompanhada de seu filho pequeno, fez um escândalo por causa da detenção da amiga. No dia 2 de setembro, Rita foi condenada a um ano de prisão domiciliar, e ainda a pagar uma multa de 50 salário mínimos.

Mas nem a condeção fez com que Rita Lee deixasse de fazer shows. Em outubro de 1976, chamada pelos integrantes d’A Chave, o show Entrada e Bandeiras, que levava o nome do mais recente disco da cantora com o Tutti-Frutti, levou 10 mil pessoas à loucura em dois dias de apresentações no Palácio de Cristal.

Foram os curitibanos d’A Chave os responsáveis por aquecer a platéia antes de Rita Lee subir ao palco vestida de presidiária com sua barriga de grávida, fazendo daquela apresentação uma grande gozação musical no meio de tanta turbulência. Nem por isso deixou de ser um concerto emblemático, já que no set-list da cantora estavam as clássicas “Coisas da Vida”, “Esse tal de Roque Enrow” e “Corista de Rock”, além dos covers “Brown Sugar” e “Drift Away”, que foi cantada em tom sofrido.

 

– Dali em diante

Em 1977 aconteceu no Palácio de Cristal o lançamento do compacto d’A Chave, único registro gravado da banda, com “Buraco No Coração”/ “Me Provoque Pra Ver”, músicas feitas em parceria com Paulo Leminski e que contou com a participação do músico Manito. Ainda em 77, aconteceu “O Maior Show de Rock do Ano”, show que contou com a presença d’A Chave, Made in Brazil, Joelho de Porco e Blindagem.

Porém, junto com a chegada dos anos 80, veio o fim da grande década do rock’n roll. Os Mutantes de Sérgio Dias se separaram em 78, bem como Rita Lee e Tutti-Frutti, e o Terço. Já em maio de 1979, foi a vez da Chave se desfazer, com o vocalista Ivo Rodrigues indo para o Blindagem. A porta para os shows no Palácio de Cristal manteve-se aberta por mais alguns anos, recebendo a nova leva de bandas que surgiam com o fim da ditadura militar.

Mas com a abertura de novos espaços para realização de shows, como a Pedreira Paulo Leminski e a Ópera de Árame, onde havia uma estrutura especial para concertos, o Palácio de Cristal acabou se silênciando. Entre as grandes placas de vidro, agora apenas o barulho das competições esportivas soa por lá.

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