Relato de um burguês cara-pálida no MST

 

Alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo visitam o assentamento Contestado, na Lapa.
Alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo visitam o assentamento Contestado, na Lapa.

 

O anúncio de uma excursão para o assentamento do MST na Lapa, a 70 km de Curitiba, organizada para a aula de Sociologia da Comunicação, foi recebida com certo temor por parte de nós, estudantes de jornalismo do segundo ano da Universidade Positivo (UP). Visitaríamos o lugar que é popularmente visto como a sede do mal, que abriga pessoas com camisetas vermelhas e foices nas mãos, que invadem fazendas para instaurar a desordem, e que defendem o pior de todos os males: o comunismo (sem falar do PT).

Era visível a preocupação nos olhos das pequenas focas (jargão utilizado para designar os jornalistas iniciantes); “ir para um terreno estranho com pessoas perigosas? Onde já se viu isso?! Processo na universidade já!”. Muito se comentou sobre o passeio, mas a curiosidade conseguiu ser o impulso para que colocássemos nossos nomes na lista de confirmados para o passeio. Felicidade para a “tia” organizadora da excursão, que conseguiu juntar o segundo, terceiro e quarto ano para uma atividade complementar fora da instituição.

Mas na noite anterior a viagem, Deus veio por meio de um grande dilúvio castigar os homens e mulheres que cometeram o pecado de querer sentir o gosto do fruto proibido. O medo se instaurou no grupo do Whatsapp. “Como vamos pro MST com esse toró? Não tenho roupa para encarar lama”, comentava-se. Apesar da forte chuva, o passeio iria acontecer, mas o clima funcionou como uma peneira que separou os guerreiros dos ordinários.

O dia amanheceu nublado, preguiçoso, assim como os estudantes que pouco a pouco iam chegando carregando mochilas, câmeras e tripés. Antes de entrar no ônibus, os questionamentos: “Será que vai chover?”, “Vai com esse tênis, fulano? Vai ser um lamaçal…”. Apesar dos temores, a ansiedade contagiava as jovens focas, que em um número menor que o esperado, gritavam, gargalhavam e pulavam no fundo do ônibus.

Tudo certo para partir, quando o inesperado ocorreu. Uma aluna estava sem documento, e não poderia seguir viagem, pois se parassem o ônibus, ele seria multado em cinco mil reais, o que resultaria no fim da aventura. Não teve jeito, a querida teve que ficar para o bem dela e de todos (e para o bem dos bolsos da empresa do ônibus).

Nossa saída estava prevista para às 09h30, mas por conta dos imprevistos, só conseguimos deixar a universidade uma hora depois. No ônibus, era uma distribuição desigual de alunos, que mesmo com o congestionamento na saída de Curitiba, conseguiam fazer graça e manter a energia viva. Houve um pequeno momento de calmaria assim que o ônibus entrou na estrada de chão que ligava a Rodovia do Xisto ao assentamento.

O lugar era bonito, com plantações que iam até onde os olhos não podiam ver. Aos poucos, casas simples de madeira foram aparecendo, e nossa professora responsável comunicou que estávamos chegando. Todo mundo ficou ligado, olhando para todos os lados, como se estivessem em um lugar muito distante da movimentada Curitiba.

Já passava do meio-dia quando o ônibus estacionou ao lado do refeitório, um grande barracão de madeira. Onde estávamos era o centro do assentamento, é lá que estavam os principais prédios, no caso, as escolas e a administração. Saímos do ônibus com câmeras em mãos e uma grande surpresa nos rostos; era tudo muito novo, e a vontade de explorar todos os cantos pulsava no peito de cada um.

Fomos para a sede da Escola Latino-americana de Agroecologia, um casarão antigo com duas salas. No ambiente da frente, onde estávamos, haviam diversas bandeiras penduradas nas paredes de madeira, entra elas a do próprio movimento, e outra estampando o rosto de Che Guevara. No meio, várias cadeiras formando um círculo, onde nos sentamos juntamente a duas integrantes do MST, Amanda Felix e Mirele Gonçalves, que nos receberam e explicaram o funcionamento do assentamento, e sobre o movimento em geral. Essa foi uma das partes mais importantes da visita, que serviu para quebrar nossos pré-conceitos.

Mirele é coordenadora pedagógica da Escola Latino-americana de Agroecologia. Formada em Filosofia, ela entrou no movimento depois de um estágio de vivência no assentamento, em que passou um tempo vivendo com uma família assentada. Já Amanda, é uma moradora, e faz licenciatura de agroecologia no assentamento.

A organização do MST é muito mais complexa do que parece, se comparada às matérias que passam na televisão. Primeiramente, eles não invadem uma propriedade aleatória em um dia aleatório; existe uma grande negociação entre o movimento, juntamente ao INCRA, com os proprietários de terras para que ocorra a desapropriação. Nesse meio tempo, acontece a ocupação e a montagem das barracas. Se a negociação não der certo – mesmo com confronto- eles desocupam a terra. Geralmente as propriedades que são ocupadas não tem produção, pois muitas vezes são usadas apenas para especulação imobiliária.

O local onde estávamos era conhecido como “assentamento do contestado”, uma homenagem à guerra que aconteceu perto da região entre 1912 e 1916. O nome não poderia ser mais adequado, já que o conflito aconteceu por conta dos sertanejos expulsos de suas terras para dar lugar a uma via ferroviária, a Brazil Railway, que era comandada por empresas americanas.

Com uma área de 3.228 hectares, o assentamento abriga cerca de 150 famílias, divididas em lotes. Até 1999, o local pertencia à empresa de porcelanato Incepa, que se endividou com os bancos, e depois de alguns meses ocupada, foi apropriada pela reforma agrária. O assentamento funciona por meio da democracia direta, em que todas as pessoas participam diretamente nas decisões do grupo. Os integrantes são divididos em setores; comunicação, educação e finanças são algumas das divisões, que são fundamentais para o funcionamento do assentamento.

Mirele também nos contou sobre a Escola Latino Americana de Agroecologia, que foi implementada ao assentamento em 2005, uma parceria entre a Vila Campesina, o Instituto Federal do Paraná (IFPR) e o governo estadual do Paraná. A escola, que tem apoio do governo da Venezuela, foi a primeira escola do país a ter o curso de Tecnologia em Agroecologia, que tem como propósito formar jovens de comunidades camponesas.

Era evidente a surpresa dos jovens burgueses com a forma de organização do movimento. Pela televisão parece que é tudo muito insano e desorganizado. “Esses vagabundos, não entendem nada!” pensa o telespectador. Na verdade, éramos nós, pseudojornalistas vindos da cidade grande, que não entendíamos nada, já que somos acostumados a outro sistema político de organização.

Estávamos impressionados com o sistema deles. Mas depois de uma hora de conversa, queríamos o rango que nos foi prometido assim que saímos de Curitiba (pagamos 15 reais). E era ai que estava o problema, como havia chovido forte na noite anterior, o pessoal do MST achou que a visita não aconteceria; portanto, quando chegamos, não havia comida no fogão. Também não havia luz, e o pior, eram poucas as pessoas que transitavam por lá. Como faríamos nossas matérias sem pessoas? Ó céus, ó azar.

Nem tudo estava perdido. Não tínhamos a mínima ideia da força do espirito de coletividade e organização do grupo. Enquanto estávamos no velho casarão tendo uma aula sobre o movimento, o almoço já estava sendo preparado. Tanto é, que assim que acabou a conversa, o almoço já estava servido no refeitório. Era uma refeição bruta, sem “fru-fru”. Feijão preto, arroz branco, carne, verduras, legumes, e para completar, um suco de uva. Tudo muito bonito, bem feito, e as focas, encheram o bucho. Valeram os 15 reais cobrados.

Ao fim da refeição, uma novidade (para alguns): lavar a louça. Coisa estranha para um jovem burguês, que tem de segunda a sexta-feira, empregada para arrumar a cama, lavar roupa, fazer comida e lavar louça. Lá o 3G não pegava bem, o que impossibilitava alguns de acessar o Google para aprender, rapidamente e sem ninguém ver, como lavar um par de talheres, um prato e um copo. Só lhe restavam uma opção, observar os mais experientes e depois colocar em prática o que viram. Eram três pias, e uma fila. Comentários e piadas era o que não faltavam quando alguém pegava a esponja para lavar o prato.

Com a louça limpa e a barriga cheia, todos foram para fora do refeitório, tendo em mãos as câmeras prontas para registrar cada detalhe daquele lugar. Alguns já estavam montando os tripés e ajeitando as câmeras, para começar a produzir o VT, quando pediram para todos voltarem ao ônibus. Iríamos conhecer a casa de uma integrante do movimento, e também, ver coisas fora do cotidiano metropolitano.

Pegamos novamente a estrada de chão, e como na vinda, o ônibus chacoalhava fortemente, o que fazia com que ele andasse com lentidão pela estradinha. Nos 10 minutos de trajeto, a leseira bateu dentro do ônibus. Muitos alunos encostavam a cabeça na janela, e ficavam, em silêncio, olhando a paisagem que passava.

O ônibus estacionou em frente a uma casa verde. Era simples, porém, charmosa, com árvores e flores que davam vida ao lugar. Quem nos recebeu foi a Dona Maria, que mora com a família, e seus cachorros (que nos receberam com latidos). Ela levou parte do grupo de estudantes à plantação que ficava ao lado da casa, passando um portãozinho de madeira. “Isso é repolho?!”, perguntou um aluno, que se surpreendeu ao ver o vegetal aberto na terra. Naquele momento, começou a aula de identificação de verduras. Meninos e meninas da cidade só conhecem alface do mercado, mas o que saí da terra é bicho estranho.

Além da beleza, de ver aquela plantação de produtos orgânicos, o cheiro que a lavoura tinha era maravilhosamente bom, nunca que sentiríamos isso na cidade. O filho da Dona Maria, que guiava a outra metade do grupo, mostrou um pé de café e seus frutos, teve até um piá que se empolgou e provou o fruto. Ao fundo da casa, haviam casinhas de madeira e um galinheiro, com galos e galinhas andando livremente (e loucamente). Mas no chão de barro do quintal, um detalhe misterioso chamava a atenção dos alunos: uma poça de água misturada com sangue. De quem era o sangue?

Continuamos o passeio pela propriedade. No fundo do quintal, havia um portão de madeira, que dava acesso aos fundos do lote, e ali percebemos o quão grande era área. A casa ficava no topo de um morro, e dali era possível ver a imensidão do terreno. Tinha um pasto com vacas magras, que pastavam tranquilamente. Descemos o morro, e ficamos na borda de um pequeno lago, donde era possível ver o resto da propriedade, que tinha outro lago mais adiante, possivelmente para pesca, e cavalos comendo capim, sem dar bola para os visitantes estranhos que os vigiavam. Era visível o cansaço dos alunos encarregados na produção dos vt’s, já que precisavam ficar levando para cima e para baixo os grandes e pesados equipamentos. Apesar do céu nublado, o lugar era incrivelmente bonito, e dava uma grande sensação de paz e harmonia.

Segui o grupo que subia o morro para retornar a casa. Ao chegar no quintal, percebi um amontoado de pessoas em frente de uma das pequenas casas de madeira. Como estava acostumado em ficar seguindo o grupo, decidi ver o que todos estavam olhando. Quando cheguei mais perto, vi que havia um enorme porco morto, retalhado em cima de uma mesa, então percebi de quem era o sangue na poça. Não tive estômago, precisei sair correndo dali.

Encontrei uma parte do grupo em frente a casa. “Tem um porco morto ali atrás! Meu Deus!”. Era um choque para mim e para os outros alunos, que assim como eu, estavam acostumados a ver e comer uma carne já pronta. A morte do animal é algo que se oculta em nosso cotidiano, mas para as pessoas do campo, é uma realidade. “Ah, mas ele não sofre na hora de morrer, né?” perguntou uma aluna. Era o pensamento da cidade grande, que mesmo com toda aquela nova experiência, ainda permanecia na cabeça de alguns.

“Eu comi o porco, estava bom, carne fresca”, disse um aluno que conseguiu se destacar do resto do grupo por sua coragem de experimentar, literalmente, a realidade do campo. O ato surpreendeu os outros estudantes, que ainda estavam chocados com a cena do bicho morto sobre a mesa. “Ui, como assim? Ai, não gosto de carne de porco.”.

Apesar do lugar calmo, a família precisa cuidar todos os dias da plantação. Para organizar a produção e a comercialização, foi criada em 2010 a Cooperativa de Agroindústria e Comércio Terra Livre. Segundo o próprio MST, a cooperativa conta com 266 cooperados, sendo 215 residentes da Lapa, 46 de São Mateus do Sul e os outros cinco de Antônio Olinto. A comercialização é feita através de programas institucionais, o principal deles é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), um instrumento de estruturação do desenvolvimento da agricultura familiar, que atualmente representa 80% da ocupação no setor rural e 40% da produção agrícola no Brasil.

Depois de conhecer a casa da Dona Maria, que por vergonha se recusou a dar entrevista aos alunos, retornamos ao centro do assentamento. O céu estava cinza, e ameaçava chuva. Mas ainda havia muito o que conhecer e registrar.

Descemos do ônibus, e Amanda nos levou até a parte de trás do casarão, que também era a frente do prédio da administração. Ali havia uma pequena porta, que dava para o porão do casarão. “Aqui era uma senzala.”, disse ela mostrando o espaço, que apesar de amplo, tinha o teto extremamente baixo, a pessoa que estivesse lá dentro só poderia andar agachado, também era totalmente escuro, e nada ventilado. Além de triste, aquele lugar trazia uma energia negativa, pois mostrava que, apesar da grande evolução da sociedade, ainda existem marcas de um passado negro, que infelizmente, muitas pessoas fingem que não existiu.

Decidi entrar no casarão, desta vez pela sala de trás, onde haviam carteiras amontoadas e um quadro negro. A luz lá dentro era fraca, o que tornava o ambiente escuro. Havia barulho de ratos no teto, provavelmente no sótão. Isso não chamou apenas a minha atenção, mas também dos colegas que comigo estavam. Saí do casarão pelo ambiente frontal, onde ocorrera a conversa com as representantes no início da visita. Vi que o grupo estava indo para Escola Municipal/Estadual, que ficava a alguns metros do casarão. Em frente à escola paramos, para que Amanda, que nos acompanhava, explicasse o funcionamento colégio.

No mesmo prédio funcionam a Escola Municipal e o Colégio Estadual Contestado, fundados em 2012, depois de 13 anos de luta. A unidade tem cinco salas de aula e uma biblioteca, e recebe cerca de 300 alunos.  A educação, dentro do movimento, tem uma grande importância, e tem uma abordagem moderna em seu ensino, já que dão grande ênfase nas áreas de política, identidade de gênero, e principalmente, cultura.

A valorização que a cultura tem foi algo que realmente me impressionou. Enquanto visitávamos a escola, estavam ocorrendo aulas de canto e de instrumentos musicais. A aula de canto estava relativamente vazia, por causa da chuva, mas mesmo com as cinco garotas formando a turma, a melodia das vozes em conjunto ao violão da professora, fisgava que passava pela frente da sala; e posso dizer que fui fisgado. Elas cantavam uma bela cantiga popular, e era tão afinado, que chegava a emocionar.

Ao fim da aula, a turma do canto se juntou a turma dos instrumentos, e tocou especialmente para as focas que estavam ali para registrar o momento, a música “Que país é esse?”, que não poderia se encaixar tão bem para a situação. A aula de música é um projeto em que dois professores de Curitiba vão, voluntariamente, todo sábado ao assentamento para dar aos jovens a oportunidade de aprender a cantar e tocar um instrumento, e também valorizar a cultura popular.

Com o fim da aula de música, também chegava ao fim nossa visita. Já eram 17h30 quando fomos convocados para retornar ao ônibus. Estávamos todos cansados, com os pés sujos de lama, mas com uma perspectiva de mundo diferente. Não éramos mais “pseudojornalistas alienados”, mas sim, “companheiros e companheiras pseudojornalistas” (ok, nem todos).

O ônibus estacionou em frente à universidade por volta das 19h. Curitiba continuava a mesma, mas nós estudantes retornamos atualizados (e vivos); sem camiseta vermelha e sem foice na mão, e sim com um espírito mais rico. No fim, a visita não se tratou de fazer os alunos se entregarem a uma ideologia, ou forçar o estudante a se tornar um esquerdista. O intuito da “viagem” foi tirar os futuros jornalistas da zona de conforto, e mostrar a eles outro ponto de vista em relação à sociedade e ao ser humano. As mudanças são sempre bem vindas, principalmente aquelas que nos fazem crescer e adquirir conhecimento; portanto, aos companheiros e companheiras que fizeram parte desta experiência, viva la revolución!

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Texto: Francisco Mateus