29 de abril: cenas de uma guerra pública

Durante a quarta feira (29), o centro das atenções estava voltado para a Assembleia Legislativa do Paraná e a polêmica votação do projeto que alteraria a ParanáPrevidência. Eu, e outras quatro estudantes de jornalismo fomos ao local com a missão de apurar quais seriam os desdobramento que ocorreriam naquele dia. Murilo Prestes e Davi Carvalho iriam avaliar a situação por dentro da Assembleia e como ocorreria a votação, já eu, Erica Diniz e Heloisa Negrão, ficamos responsáveis por cobrir o ato liderado pelos professores e situações externas a votação.

Durante o início da tarde, presenciamos várias manifestações das centrais sindicais no carro de som que estava na Praça Nossa Senhora de Salete, como representantes do Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor), da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Paraná (APP). Por volta das 14h30 uma correria sinalizava que algum confronto tinha iniciado, não foi possível ouvir bombas ou ver onde tudo tinha começado, víamos apenas pessoas correndo e gritando.

Depois uma primeira dispersão, sem nenhum sinal de que havia acontecido algum ato ilícito ou tentativa de invasão na Assembleia, percebi que os manifestantes tentavam se juntar novamente, porém antes da reaproximação várias bombas foram jogadas do helicóptero da polícia, que já sobrevoava o Centro Cívico desde as 12h.

Notei a presença de dois atiradores de elite no terraço da Assembleia, e após eles aparentarem uma comunicação via rádio com o comando da operação, balas de borracha começaram a ser disparadas em direção aos manifestantes, uma correria começou para todos os lados e além de tentar fugir, os manifestantes ajudavam uns aos outros para que aqueles que de alguma forma estavam feridos, fossem levados para lugares seguros e recebessem os devidos atendimentos. Com um grande susto, acabamos por nos separar, eu tentava correr para trás da polícia enquanto minhas companheiras de trabalho correram junto com o grupo de manifestantes que tentava deixar o local.

Por todo lado latidos dos cães da polícia e gritos eram ouvidos, não havia diferenciação entre classes, gêneros ou idade, somente via-se ataques por todos os lados, o que resultou no cerco aos professores. Depois que consegui restabelecer contato com minhas colegas, elas me disseram que estavam trancadas em uma clínica oftalmológica e só seriam liberadas quando as manifestações parassem. Logo na sequência presenciei um homem de terno que causou alvoroço no meio dos manifestantes, autointitulado promotor de direitos humanos do governo federal, o mesmo passou pela multidão e sumiu no meio de manifestantes carregados e feridos que sangravam por toda parte.

A Prefeitura estava pedindo que os manifestantes atingidos entrassem no prédio onde foi improvisado um pronto socorro, para receberem atendimento primário, e depois serem transferidos para um hospital, já que devido ao cerco da polícia, não havia como ambulância chegarem no local. Vi muita gente despejando vinagres na roupa e nos olhos daqueles que foram atingidos pelos sprays ou pelas bombas de efeito moral, o vinagre era a única forma de cortar os efeitos das armas dos policiais. Os policiais chegaram inclusive a atirar sobre a imprensa que tentava registrar o fato sempre que alguém apontasse uma câmera para eles.

Eu passei um tempo tentando registrar os ocorridos junto com os jornalistas que ali estavam, mas após uma sequência de bombas que foram jogadas pelo helicóptero, tivemos que nos separar  e cada um correu para um lado, para que nada de ruim acontecesse com a gente. Quando tentei me abrigar, cruzei com algumas bombas, e a sensação foi das piores: os olhos, nariz e boca já faziam jus ao nome do spray de pimenta, então um casal, com a cara limpa, chegou até mim, jogaram vinagre no jaleco que eu usava e o colocaram na minha boca para que eu respirasse e sentisse aquele cheiro, também jogaram vinagre nos meus olhos, me senti aliviado.

A tropa de choque do Estado do Paraná continuava a avançar e por volta das 16h notava-se a chegada de pais preocupados em buscar seus filhos no CMEI Centro Cívico. Crianças saiam chorando de dentro da creche e bebês eram retirados de máscaras e levados para os carros na maior correria, não houve a menor preocupação em poupar dos ataques a área em volta da creche. Após esse grande avanço, o confronto foi cessando e os militares regrediram aos portões onde já estavam desde as 6h da manhã.

Os senadores Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffman (PT) e a vice-prefeita da capital Mirian Gonçalves (PT) se locomoveram até o caminhão de som das centrais sindicais, expressaram repúdio as atitudes que ocorreram naquele dia e sinalizaram que entrarão com recursos a nível federal para que as decisões tomadas pelo governo estadual naquele dia não sejam tratadas como naturais e para que elas sejam julgadas de acordo com as leis de direitos humanos.

No começo da noite, com a lei aprovada, notei a frustração e a insatisfação por parte dos servidores públicos, a maioria daqueles que vieram de outras cidades já se preparavam para voltar para suas residências, não era permitida a entrada de ninguém que não estivesse credenciado, nem mesmo os funcionários noturnos da Assembleia, a ordem era liberar a entrada somente da deputada estadual Cantora Mara Lima (PSDB), que poderia chegar a qualquer momento.

Por volta das 20h um pequeno grupo aparentemente cansado continuava na frente dos policiais gritando “governo fascista” e a cada tentativa de gravação das emissoras de televisão sobre o ocorrido eles levantavam placas e atrapalhavam os repórteres que tentavam trabalhar.

Quando não havia mais ninguém no local, conversei com policiais que relutaram em passar qualquer opinião ou informação, mas que após um tempo resolveram se pronunciar, pediram para que não houvesse exposição de seus nomes e apenas revelaram que eram de Telêmaco Borba, eles não estavam satisfeitos com a situação, garantiram que não era a vontade deles aquilo que teria ocorrido, mas deixaram claro que não acharam errado o fato de um cinegrafista ter sido atacado por um de seus cachorros e também culparam os próprios manifestantes pelos ferimentos, dizendo que tanto o cinegrafista como os manifestantes, deveriam avaliar o nível de periculosidade, ficar o mais longe possível, não provocar ou ficar muito perto como estavam fazendo.

Repórter Brayan Valêncio

Foto: Brayan Valêncio